quinta-feira, 14 de agosto de 2014

Monólogo em Areia e Dedo: Vinte e Oito (ou "Aviculário")

Aqueles dia passarinho engasgou atravessou a rua puta porra passarinho mas se tu voa porque raio tu vai ficar de asfalto eu gritei mas o passarinho surdo piava desafinado era uma vez solfejo era uma vez passarinho o sinal fechado fui correr pegar o passarinho a pé fez sinal pro ônibus que parou passarinho piou perguntou uma coisa o motorista de banda fez cara de dúvida eu peguei o passarinho no colo respondi senhor por favor sabe se passa na praça Vã Nhagem? ele foi respondeu que não que era pra pegar no mesmo ponto o 433 e a gente parou esperou perguntei passarinho porque tu não vai voando é aqui perto porra dá teu jeito passarinho voa nessa porra e ele piando desengonçado entendeu eu acho a minha pergunta porque sempre foi bom de leitura labial e eu que não sou bom de leitura bical aviária o passarinho ria ria me pedia um gole de cachaça do meu cantil e eu sabia que pedia porque ele estendia a asa quebrada apontando e com ela virava o copo que carregava pra cima e pra baixo pequenino que nem ele bicava a cachaça a dose do gengibre e virava duma vez e rápido eita passarinho safado e soluçava umas três ou quatro vezes depois do gole só que depois ficava mais calmo na moral e pedia mais e virava outro gole e eu dizia porra passarinho assim tu vai ficar bêbado e como é tu chega lá sozinho e ele ria ria passou mais três ou quatro ônibus ele estendeu a asa quebrada pra cada um dos três ou quatro e nenhum era o que ia levar ele na porra da praça e eu perguntando que que ele ia fazer em Vila Isabel e ele rindo passou o tal do 438 e ele já tava bebo demais e eu fiz sinal e o busu parou e eu confirmei com o piloto que se ia chegar lá onde ele precisava e chegava e paguei a passagem subi pela frente girei a roleta entrei o passarinho pela porta de trás que o bicho tava sem força pra tudo e o passarinho me olhou soluçando de novo arrotando cachaça me olhou bem no olho esquerdo que é o único que eu enxergo e piou e eu disse antes daquilo lá partir eu disse eita que eu quero ser aviculário quando crescer e o passarinho rindo rindo estendeu a asa quebrada pra apertar minha mão e eu apertei de volta a asa quebrada com cuidado e tal que o ônibus começou fazer que ia partir e eu gritei pro cobrador que ele ia descer na tal da praça Van Halen e o cobrador falou que ia ajudar que gostava muito dessas ave também e jurou que num ia fazer churrasco do bicho pra vender no centro primeiro porque não tinha tempo e também porque já tava almoçado e de qualquer jeito o bicho tão bebum assim ia até atrapalhar o jejum dele de mais de mês de alcoólatras anônimos da igreja sem beber graças a deus desde que entrou naquela preja nem uma gota de álcool no sangue e o ônibus já tava andando e corri atrás e falei pro passarinho me ligar quando chegasse em casa e ele rindo rindo disse em alto bom tom ou fui eu que passei a entender a piadeira do nada: "Heureux l'oiseau qui vole sans ailes! Pour plus de verres de vin à l'avenir, mon frère!" Parei de correr e cochichei comigo mesmo: mas que passarinho safado! que ele sabe que eu não sei francês!

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