domingo, 14 de dezembro de 2014

Ensaio Sobre Redenção

I

Existe um mundo lá fora
E o mundo aqui dentro de mim
E o mundo aí dentro de ti
Espalhado no ar feito o cheiro do almoço
Feito a altivez do rosto que não me pertence e eu quero tocar
Como também um espelho e a imagem do outro lado do espelho
Estamos todos cansados desta metáfora, mas juro que é como descrevo:
Aquela mão de sentido invertido que afaga o lado errado do rosto
Esta imperfeição dos gestos a física explica
A arquitetura urbana disserta sobre o prédio tombado, esquina dentre uma viela e uma rua
Sobre o cruzamento confuso e perigoso da Avenida, o departamento de trânsito
Sustentamo-nos nestes alicerces para errar menos ou para justificar os erros anteriores
Como arqueologia explica algumas pessoas terem testas tão grandes
E crânios enterrados estarem tão inusitadamente deformados
O curso de artes plásticas explica a aquarela
Dessas cores-coisas de baixo concreto compondo a cidade:
Canto.
Existe um mundo lá fora
E o mundo aqui dentro, e o dentro de ti
Cada um e cada qual com sua ciência
Mas aqui trato da metafísica da palavra
E da metalinguística do fracasso.

II

Perdão, mas aquela... Desculpa se embriagado já essa hora! mas:
Aquela, soluço
Vontade de gritar de manhã cedo, soluço
Me faz milagre!
Aquela vontade de voltar de manhã cedo com o diabo do corpo cansado
E com o diabo cansado do corpo
Me queima
Me cabe bem
Me escorre a garganta roçando e guiando o caminho até minha boca do estômago
Que, tagarela, já te disseste tudo o que havia de saber sobre mim.

(Esta noite sonhei novamente que os dentes da frente caiam da boca
E mesmo aos 27 anos eu torcia para que fossem os de leite
Despertado conclui que eram! pois acordei
E acabavam de cavar de volta seus últimos centímetros gengiva à fora
Suados, choravam como todo bom recém nascido
Ah, estes destes incisivos.)

III

Sou homem de palavra
SOU homem de palavra despedaçada
Viciado em antibióticos e multidões
Inflamado pelas palavras que me disseste ontem de noite ao dedo mindinho do pé do ouvido
Sou homem mas quereria ser mulher
Estou enjoado de tanta necessidade de tanta masculinidade
Queria poder escolher
Mas não é opção, vide o fracasso em sê-la
Sou homem de pequenos gestos e dores nas costas
Inflamado pelas palavras que me jogaste ontem do vigésimo quarto andar
Porque evitavas de descer à recepção me receber.

(Repito o refrão dos becos
O estribilhos das ruas
O coro das quebradas
Nunca estaria presente ao teu lado em quarto de motel ou hospital
Em minha insignificância e covardia, respectivamente
Mas tua cuja beleza e saúde admiro e respeito devido a distância
Com a devida distância.)

IV

Outra reflexo de fracasso é a limitada opressão que sofro
Mesmo a falta que me faz a carteira de identidade no bolso
Falta-me menos pois minha pele é branca
De nem tão branca assim, só o suficiente
A falta que faz falta me menos
A violência me é menos casual e isolada
A violência me é menos pontual e marcada
Pelo drama simbólico e vazio de me fazer a vitima
Morro e corro, baldio e vadio
Embora domesticadamente:
Civilizadamente revoltado
Grafito mentalmente
O estribilho mais nu dos muros
Das quadras que faltam pra cidade acabar.

V

Fracassa-me também a euforia
A folia cansada de quarta feira
Nem é Carnaval, é dia útil
O corpo faz e finge que desconhece o calendário
Insere no mês, arbitrariamente, um novo feriado
E ginga pro lado com uma fome pinicando a boca
Uma sede roçando a língua como se ônibus lotado
Ginga e caminha e tropeça rumo sincopado
Onde o barulho está mais quente para
Descobrir que o lado bom da vida
Está do lado dessa gente trabalhada em teimosia
Está do lado do coro menos confortável, mais descontente
Que zumbe suave o fundo desta madrugada
Embora apenas outro ponto da cor de lápis de cor errada
Nisto fracasso menos, portanto.

Contudo, como tantas doenças perdidas neste universo amostral de chagas
Havia um resto de febre ali à espreita
Uma sequela quente fervendo uma parte outrora fria do corpo
Ora a testa, ora a nuca, ora a virilha
As pernas ferviam mais cada degrau daquela escadaria
A caixa torácica ardia de doer conforme as noites se repetiam
Como toda boa febre, esta trazia outros sintomas
A tosse tossia para abrir a garganta
Outras vezes tossia pura pelo sádico prazer de se quebrar o silêncio
Ver se assustava uma ave, roedor ou inseto escondidos de dentro de casa
Roubando-lhes o prazer e a vez de espantar
A febre passava para os móveis e azulejos
Todo aparelho daquela casa parecia ferver às vezes
Perguntava-se, a esta altura da existência e Verão, o que havia ali para se congelar?
"Nada", a resposta vinha entre aspas
O septo nasal aquecido
O labirinto do ouvido afinado e agudo
Seria uma noite de suor adiante.

As telhas, por sua vez, certa vez, inclusive
Chegaram a derreter
Aí, além de febril, este que vos fala
Permanecera soterrado por semanas
Nisto e neste sentido se configurara um sucesso
Semanas depois, pois
Percebeu, finalmente, que sua temperatura havia baixado
Quando seu gato sentou-se, ronronante, em seu colo feito só câimbra e poeira
Sabido era o calor natural do organismo bichano
Viu, ali e portanto, que o carinho felino praticamente lhe queimara a roupa e a pele
Assim chegou o Inverno.

VI

Um caroço
Um calo
No tempo presente, fracasso aterrado
Duzentas bactérias na garganta para viagem, por favor
Mal curado estou, bem curado eu vou, mas, perdão
Cansei da posição horizontal, por favor, escuta
O inverno em Salvador é equatorial, meu amigo
Desculpa, ouve,
Escuta, por favor:
Preciso justificar, lá em casa
O trago de cachaça com mel
Que vou entornar esta tarde
Então, faça me esta gentileza, uma laringite fresquinha
E o corpo inteiro faz viagem, faz favor
Que o baile ali no morro, hoje, vai durar até amanhá
Que essa gente toda assim ainda
Tão macia, tão suada, tão risonha e disponível
Embora nem tão lúdica, poética e simbolicamente quanto eu descrevo,
Ainda vai me redimir a humanidade.

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