O shuffle estava muito cruel naquela noite. "'Nothing compares 2 U', sério"? O amigo chegou antes do terceiro refrão, atabalhoado, perguntou se tinha lembrado de levar o isqueiro. Tinha. E, sim, não esqueceu a seda, dobrada na meia, doidão. Perguntou que que era atabalhoado. Falou do bofe pra ela, da pós graduação. Fazia tempo que não sentavam a bunda numa praça pública, cidade violenta. Mas ali pareceu boa hora e lugar, meia dúzia de criança, cachorros, idosos, pipoqueiro, banca de jornal 24 horas, se secar o fogo ou arranjar um varejo. Dia seguinte. A menina com quem tinha marcado uma casual tinha saia curta demais para uma protestante, devia ser batista, concluiu. Ademais o fato de estar saindo com outra mulher. Na outra semana. Acordou. Seu único pertence além da roupa era o esparadrapo que fechava a ferida do soro. Quando levantou, finalmente, chovia e já era quase três da tarde. Como, obviamente, tinha ideia nenhuma de que horas eram, cumprimentou sorridentemente a enfermeira com um exclamativo "Bom dia!" (Como sempre fazia.) A funcionária do hospital cochicharia com sua colega de trabalho: "Menina, veja só. Nem parece que tentou se matar ontem". Imediatamente depois de sua alta voltou a fumar filtro vermelho. Dois anos depois. Demorou umas cinco semanas para sequer tocar a cama dela. Porque era dela, ela que pagou, dela, então. Dormia no sofá porque sim. Ainda sobre a cama, como disse, deixou por muito tempo as colchas e lençóis como ela havia esquecido de arrumar antes de sair. No primeiro dia foi por birra, porque não era sua criada, porra. Depois porque notou que a marca do lençol amassado ainda descrevia vagamente em suas linhas tronchas o seu corpo deitado antes. Parou de fumar, por conta própria, três dias depois que mudou de cidade. Cinco anos passados. "Engraçado como a gente se acostuma com o litoral."
sábado, 4 de outubro de 2014
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