Sou muito independente pra minha idade, embora odeie estruturar minhas frases com essa justificativa. A despeito de saúde, nascer na década de 30 não é desculpa para reclamar da vida. Hoje, por exemplo, saí de novo. Engraçado como as coisas mudaram nessa cidade. Muitos amigos que tinham casa se mudaram para a capital do estado, e eu continuei. Tanto pelo emprego público que consegui e me aposentei, quanto pela tranquilidade e estrutura que a região oferece. Moramos apenas em dois bairros diferentes, e neste aqui estamos há mais de 40 anos. Um dos meus grandes prazeres é a nossa Praça São Alegrense, que foi feita por um prefeito meio corrupto há quatro eleições atrás para ganhar votos. Os moradores tinham certa dúvida de como lidar, afinal, ia aumentar e muito a movimentação no bairro, que já vinha acrescido de pontos de comércio. Porém, acredito que seja consenso agora, a mudança foi para melhor. Já temos até uma feira, a feira São Alegrense, que pode se chamar de tradicional. Vende-se diversos produtos, em sua grande maioria artesanais, e a cada dia há um tema diferente: antiguidades, horti-fruti, brechó. Me perco um pouco nesses detalhes, mas ontem encontrei até um ventilador muito velho, idêntico ao que eu tinha da época de solteiro. Muito bom, ia quebrar um ótimo galho para o Dezembro Verão que se achegará em breve. Deixei pra próxima por ser pesado demais para carregar, porém. Este é o sétimo ano seguido que mantenho um diário, tenho tal hábito desde que perdi parcialmente minha fala. Amanhã já é último dia de Novembro, o que significa que estou bem perto de conseguir novamente um registro por dia, uma agenda completa. Tudo bem, umas páginas maiores, outras menores. Por esta liberdade uso um caderno. Este registro está maior porque talvez eu esteja tagarela essa semana. Explico, há a possibilidade de Sofia estar grávida. Estou ansioso com a possibilidade de ser bisavô. O sorriso que faço agora é bem parecido com o que fiz quando Ana nasceu. A casa estará cada vez mais cheia. Voltando à feira, hoje comprei dois abacaxis também, menos pra mim e mais para o povo daqui de casa, diabetes me impede de comer a fruta desde 1999. Mesmo que ninguém coma, no final das contas, compro pelo aroma, mais. Lembro que minha finada mãe comprava três ou quatro e deixava na mesa cozinha de casa só para perfumar a cozinha. E eu concordo com o que ela dizia, "cheiro de abacaxi é uma das melhores coisas da vida".
quarta-feira, 17 de outubro de 2012
Primavera nº82
Porque já mal consigo falar as pessoas tentam se passar por minha língua. Se não os dedos dessa mão esquerda que ainda escreve - bem, a propósito - teriam me empurrado uma cadeira de rodas. Sim, motorizada, com controle remoto, uma cadeira, com rodas, para aleijados. Nada contra os pobres aleijados, só que eu ainda tenho pernas, ainda ando. Amputei nada. Primeiro foi uma muleta, a perna esquerda dobra muito mal, só quebra galho. Depois duas, por insistência de minha neta ao ver minha dificuldade de pegar as chaves e abrir a porta de casa. Me irritei e relevei, afinal, temos que aceitar certos limites do corpo. Agora me arranjaram uma muleta esquisita, tripé, com rodas. Essa coisa é feita de metal, diferente da madeira das muletas, e sempre pita na porta giratória do banco. Só saio de casa com ela quando Maria Clarice insiste. O problema é que os assuntos por raridade se limitam à minha saúde. Tenho um terreno muito bom que adquiri na década de 60, na Barra Rasa. Foi na esperança de realmente montar uma casa lá, mas acabamos ficando por aqui mesmo em Rio Amarelo. A mulher, meu broto, que Deus a tenha, queria morar perto das irmãs. Me arrependo pouco, foi bom para nossa filha crescer perto dos primos. Voltando ao terreno, queriam eles vendê-lo por uma fortuna média a uma construtora, que quer construir um condomínio de luxo em Barra. Imediatistas, insisti e bati o pé, ou melhor, minha canhota. Escrevi que me recusava, que já havia assinado em meu testamento que o terreno vai ficar para minhas netas. Reclamaram e discutiram, e o debate continuou por meses. Porém no último ano, isso foi em 2009, concordaram comigo após todos os jornais indicarem que a região era a que mais se valorizaria. Na minha época nem entendia de especulação imobiliária, e ainda entendo pouco, mas pelo visto foi o certo. Sofia está construindo uma loja lá para ocupar o terreno. Maria Clarice ainda vai decidir o que fazer da vida, mas sabe que o terreno também é dela.
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