Tínhamos o silêncio para nos proteger, nos vigiar e punir. Tínhamos o silêncio das noites em claro. O silêncio dos ventiladores ligados mesmo em dias frios. O silêncio dos talhares batendo nas beiras dos pratos, até a comida acabar. Contudo, era nas vésperas de Natal que este silêncio todo realmente doía, e apontava no peito uma vontade esquisita de dizer alguma coisa. Mas o Papai Noel nunca desceu pela lareira, até porque nem tínhamos uma. Ele também nunca usou nenhum pó mágico para entrar pela fechadura. Quer dizer, se alguma vez ele fez isso, conseguiu ser ainda mais silencioso do que aquela casa inteira, passando sorrateiramente por nós, enchendo nossas meias e pés de árvores de poeira, porque só isso que ele jamais poderia nos dar, e indo embora rápida e silenciosamente.
Quando o Natal passava, o silêncio passava a incomodar menos, mesmo no ano novo, que era só aquela coisa de fogos, contagem regressiva na TV Globo, abraços vagos, e desejos distantes de felicidade distante vindo de parentes distantes. Contudo, após os Reveillons, eu sentia o resto do mundo numa proximidade estranhamente familiar. Isso acontecia a cada primeiro de janeiro, e exclusivamente nesse dia (aliás, acho que sinto mais ou menos isso até hoje). Ao abrir a janela de manhã, caminhar até a padaria, pedir minha dúzia de pão ou o pó de café que acabou, eu sinto que o resto do mundo todo também está em silêncio. E que de alguma forma, ao menos nesse sentido, nós compactuamos e compartilhamos do mesmo sentimento. Do sentimento que deveríamos estar dizendo alguma coisa, embora não consigamos. Quem sabe até o ano acabar, se deus quiser, nós consigamos dizê-la.
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