terça-feira, 18 de outubro de 2011

Repente (Ela Me Ligou Da Beira do Trilho do Trem)

Ela me ligou da beira do trilho do trem
Embora não passem mais trens na via, aqui na Capital
Ela me perguntou que mal havia
em querer chover aos sábados, gritou que era engano
E discou outro ramal.

Ontem sonhei que eu só tinha um pulmão
Que eu entupia em nicotina
Uma fada, sobrada, na mochila
Na véspera do fim do mundo
Eu bebia um gole seu e atacava o porto errado
Declarava a guerra errada
Parava no ponto errado
Pegava a charrete errada
Cantava o repente errado
Minha sorte, moribunda
Nem sabia que horas eram
Eu beijava um beijo torto
Na boca do meu passado

Quando acordei, ereto o corpo
Dez ligações perdidas
No silencioso celular
Acendi o fogo, cigarro
Fucei o espelho e descobri
Que acordei dessa vez em outro lugar
Desrespeito não se aprende
Alegria é nascer sabendo
Tristeza é morrer querendo
Morrer a morte mais perfeita.

Jurei vingança à manhã recém nascida
Que já pedia a saideira
Mal sabia do dia a cor
E do fundo do último copo de cerveja
Já rachado a noite inteira
Eu respirava e entendia:
Ela me ligou da beira do trilho do trem
Cheia de drogas, libido, cupidos e promessas
Pra me querer e fazer bem
Foi quando o sol me passou despercebido
A pé, o dia inteiro já vivido
Não tinha como dar de ré.

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