sábado, 12 de novembro de 2011

Os Pães

Até quando essa casa vai nascer quadrada? Queria que chovesse logo. Queria que você me ligasse logo. Por que você diz que eu não deveria comer tanto pão de queijo? Por que você acha que eu devia malhar mais? 'Tô sentindo cheiro de café o dia inteiro. Passei em frente a um prédio em obras, muita poeira, muito cimento, homens sujos de cal, e mesmo assim eu dei pra sentir cheiro de café. Mas agora 'tô sentindo cheiro de chuva, só que o tempo está tão limpo. Isso me lembra que ainda preciso estrear um futuro novo.

Recebi sua carta ontem, e a li e reli, mas, meu amor, parece tanto que você me diz as mesmas coisas que dizia há 12 meses atrás, quando juramos não tocar mais nesse assunto. Comprei uma câmera nova, ontem a noite sonhei que o mundo estava acabando e as pessoas não corriam nem gritavam, apenas levantavam suas câmeras lomográficas e polaroids para fotografar as tsunamis, os vulcões, os meteoros, as crianças nascendo com tentáculos de polvo, as mulheres parindo cachorros, os homens com seus pintos que viravam linguiça e os cachorros recém nascidos correndo atrás deles. Ainda se vende polaroid? A vida sempre parece mais bela pelas fotografias. Ninguém costuma fotografar desgraça, só fotógrafo de jornal popular que gosta de fotografar defunto morto no chão sangrando pra estampar na capa. Por que eu não deveria ter um filho? Sempre quis engravidar, ter família, cuidar das minhas crianças, mas já me disseram que isso é anti-feminista, que eu preciso me impor, me livrar da dominação machista, masculina. Me disseram numa mesa de bar. Chegaram a me chamar de machista uma vez, mas foi só uma vez, e não guardo mágoa. Antes disso, preciso saltar de paraquedas.

Ah, já são 23 anos de praia, embora eu me sinta 30 anos mais velha só de usar esse termo. Queria ter uma penca de gatos. E uma penca de filhos. Uma casa cheia de gatos e filhos. Ainda sobre esse assunto, pena que é tão caro se criar criança hoje em dia, minha avó, ela mesma sempre dizia; ela, filha caçula de uma ninhada de 9 crianças que minha bisavó tinha desatado a parir. Lá no Mato Grosso, no meio do século passado, as coisas pareciam ser diferentes. Mesmo minha cidade, quase toda mudou. Agora respirar é difícil, meu nariz entope por qualquer coisa, agora-agora, embora pra mim tenha sido sempre assim, é que tudo piora. Meus pais também comentam, minha avó ainda viva, claro!, mais sadia do que eu, também. Quem tocou no assunto outro dia foi a tia da Isabella, a tia avó, essa por parte de pai, pouco antes de falecer e nascer de novo na véspera de feriado do Dia do Comércio. O neto mais velho dela agora estuda em Brasília, vai tentar concurso público. Não sei porque comentei, acho que é porque tenho pavor de concurso público. Meus pesadelos sempre envolvem cargos públicos e programas de televisão. Queria ter pra mim uma cidade de praia. Cidade particular, praia particular. Ou talvez eu não fosse querer coisa nenhuma mesmo se fossem meus o Rio de Janeiro ou a Califórnia, e quisesse na verdade ser dona da Lua. Isso me lembra turma da Mônica. Por que você me pergunta que horas são mesmo estando de relógio? Esse seu jeito agressivo de fazer perguntas...

Já que passado novo não se vende em loja, eu devia comprar um sapato novo, acho que tenho esse desde o ensino médio. Esse e aquelas chinelas, uma pra tomar banho, outra pra padaria. Eu devia aprender a andar de Bicicleta. Acho que faz uns 9 meses que não bebo Coca-cola. Daqui a pouco faz um ano. Será que vou morrer de câncer? Eu devia aprender a nadar. Nadar direito, porque eu só engano. Só nada no nada quem nada no vácuo, essa frase me veio na cabeça nesse instante. Devia pintar meu cabelo de azul, e esquecer que um dia eles já foram castanhos. Por que você me diz que eu devia ser feliz? Quem que viveu até agora a vida fazendo de conta que queria viver? Eu sei muito bem que dia cai o feriado de São Cosme e Damião. Queria aprender a voar, ou reencarnar uma passarinha mesmo. Ser perseguida por gatos que tentariam me fazer de almoço, de segunda à sexta, ao meio dia. Embora eu ache que a vida em geral já seja meio assim. Já faz uns anos que não acredito em nada - políticos, fadas, religião e outros mitos, sexo, orgasmo, vida extraterrestre, fada do dente, ah... já falei de fadas. Por que eu deveria sair com rapazes mais altos que eu? De onde veio essa mancha no braço? Tenho uma música na ponta da língua desde cedo, mas esqueci quem canta. Eu não consigo espirrar de olhos abertos. Acho que ninguém consegue. Eu queria ter um pedaço de Matéria Negra no aquário. Por que você não está aqui?

Parece que sempre tem pessoas estranhas paradas em baixo das árvores do centro da cidade. Pessoas sozinhas, falando sozinhas, olhando pro nada. Eu mesma me pego às vezes querendo falar sozinha, que "a culpa não foi minha, a culpa não foi minha." Isso me lembra da vez que eu estava voltando de uma festa qualquer, já de manhã, e percebi que numa das vielas da rua que levam até a minha casa havia um homem andando com um saco de pano. Parei pra prestar atenção, e notei que ele marcava o seu caminho com migalhas de isopor, que tirava de dentro do saco. Usei a palavra "migalhas" porque pensei que eram de pão, mas se ele fosse um morador de rua, como parecia ser, não desperdiçaria comida. Segui por certa parte do caminho e notei que ele cantava uma música durante o ritual, mas que eu não reconheci direito, pelo visto minha memória musical é péssima. Ele passou por uma transversal movimentada, carros pararam buzinando, ele causou uma certa confusão, então. Mas pelo visto, ficou bem. Esses dias encontrei ele de novo, dessa vez marcando seu caminho com pedaços de envelopes rasgados de discos de vinil. Reconheci uns recortes de uma capa famosa do U2, e eu só soube que era deles porque era bem a cara do Bono, em preto e branco, boiando na poça d'água do buraco do asfalto.

E você toca no assunto da carta de novo, e eu digo pra quê, me diz? Pra que o rio tem tantas pedras pontiagudas quando a gente tira os sapatos pra pisar na água? Na verdade, só Jesus pisa na água, então, o homem que é o homem só pode mergulhar os pés. Como eu sou mulher, vou tentar dar um jeito. E quando você insiste que eu devia ser feliz, eu digo que já sou, e você insiste que eu não sou. Mesmo se eu mentisse, o que importa é que a mentira que eu faço comigo, é um presente próprio, de mim para mim, só meu, que eu compro e guardo e que não te diz respeito. Pra você, sempre, só houve verdade da minha parte. Parece que a dor que doía debaixo do peito, doída só de pensar que eu estava dando o melhor de mim ao criar estrelas do meu próprio quarto, ao construir os foguetes que construí pra instalar no terraço de casa e jogar essas estrelas para além do campo gravitacional da Terra, e fazê-las brilhar pelo resto da História restante, para humanidade inteira ver o quão importante era, para mim, ser você; parece que essa dor já vai passar.

Por que essa cara engraçada? Amanhã já é domingo. Acontece comigo sempre de eu secar antes de beber. Percebi esses dias que me encanto facilmente por pessoas que poderiam estar no elenco de uma novela mexicana. O que me lembra a minha infância, quando pães de sal eram mais em conta. Parece que hoje eu trouxe a chuva comigo. Pena que não se inventam coisas como marquises de bolso. Que que isso na sua mão? Por que você ri toda vez que falo sério? Eu sei que meus cadarços estão desamarrados. Tem um tumor perdido em algum canto dentro de mim e eu ainda nem sei seu nome.

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