domingo, 3 de abril de 2011

Café Nº 3

A minha cachorra resmungando sobre provavelmente um gato no meio do quintal, a passar no muro da vizinha ou a se jogar com ela, aloitando, por pedaços perdidos de ração que acabaram de acabar e que levarão um certo tempo até eu ter tempo de comprar mais e reabastecê-los; um mendigo mexendo na lixeira de 15 metros depois do meu portão, e morar no Centro da cidade tem lá suas características inusitadas, até porque provavelmente o indivíduo nem deve estar procurando por comida, afinal, o restaurante a um real em torno da Central do Brasil é a nona maravilha do mundo moderno; ele deve estar a procura de latas de alumínio para reciclar e então, de uma vez por todas, financiar seu próprio Apê em Realengo; um ponto de ônibus, o 455 passando direto do ponto, sorte que qualquer carroça que passe aqui me deixa na porta do trabalho, e eu pego o ônibus, lotado como sempre, e tenho que ver e ouvir, logo pela manhã, e isso me irrita profundamente, pessoas xingando e resmungando porque alguém furou a fila, porque um lugar para idosos/obesos/deficientes físicos não foi dado a quem o merecia por direito, ou simplesmente irritados porque suas digníssimas esposas não lhe ofereceram carne na noite anterior, e jogando suas maletas irritados sobre a mesa do trocador, e este pedindo calma, e a pessoa dizendo "foda-se, eu já estou irritado, me deixa em paz", e o trocador (ou "cobrador," depende de em qual estado tu, tu que estás a me ler agora, foi culturalizado), naturalmente, dizendo que não se trata de problema dele, e de qualquer forma, é irritante ver pessoas enxendo-se os sacos uma das outras, desculpem-me as damas, aliás, mas é assim que as coisas funcionam numa manhã de segunda feira; mas já é quarta, o mesmo ônibus, um cheiro de cigarro que também já me foi irritante mas com o qual hoje em dia já me encontro familiarizado, e a orla de Botafogo, e as pessoas andando com seus cachorros de raça exótica, e um caro desconhecido sentado ao chão com o seu Beagle, googleiem por favor, e, então, deixem me dissertar um pouco acerca desta figura: esporadicamente venho notando que este indíviduo se encontra sentado ao chão, geralmente cabisbaixo, em expressão desolada, acompanhado sempre do referido cachorro que vos falei; sempre ao mesmo local, sempre a mesma hora, ou eu suponho que seja assim, anyhow, eu, este que vos fala, me via sempre contornando a mim mesmo a questionar a origem da tal figura inusitada - permitam-me descrevê-lo, seria um homem adulto de não muito mais de 30 anos, nem gordo nem magro, sempre vestido de branco com, sei lá, bermuda ou calça, 5 segundos de vista ao passar de ônibus por ele não me são o bastante para mais detalhes afinco, mas, contudo, claro, incoerentemente, são me o bastante para dissertar sobre sua natureza: me pergunto se se trataria de um fantasma, e essa é a hipótese mais interessante, acompanhado sempre por seu Beagle, este talvez fantasma ou não, talvez não, talvez sim, quer dizer, talvez sim, porque é um cachorro carismático e com certeza, se este fosse vivo, alguém o já teria levado consigo - de qualquer forma, um fantasma, que morreu há poucos anos, que perdeu sua esposa, seu grande amor, e desde então morreu de tristeza, sendo assim acompanhado por passeios matutinos com seu cachorro - não, claro, eu moro no Rio de Janeiro, metrópole, e se eu estiver errado culpem meus finados professores de Geografia, mas então, Rio, a hipótese mais provável, seria esta, dele se tratar de um doido, maluco, "lhouco", sendo assim, não tão interessante, visto ser algo relativamente comum por estas bandas; assim, o homem em questão podia se tratar apenas de um homem meio lêlé, que de manhã não tem mais o que fazer senão passear com o seu cachorro e sentar no nada, no meio da grama, acho que ainda não havia dito isso, mas ele se encontra na grama, de frente pra praia, bem próximo ao túnel que dá de frente pro Rio Sul; gosto de jogar com a possibilidade, também, dele ser um veterinário, que sai todas as manhãs pra ver outros cachorros, levando consigo o seu mascote favorito; também há a possibilidade dele não existir, e ser reflexo do excesso de café matutino que uma ilusão de ótica me causaria, mas você sabem que esta possibilidade não é pra ser levada a sério, por mais que, de fato, o meu consumo diário de café seja acima do nível considerado saudável pelos médicos que palpitam no Jornal Hoje.

Deixem-me falar do tal do meu emprego, é um emprego comum, nem chato, nem excitante, desafiador, no mínimo, porém, valendo mais a pena pelos colegas de trabalho em si, e por nossa convivência informal, descontraída, do que pelo prazer da labuta ou por boa remuneração que esta nos daria; e dali, seus arredores, Ipanema, Arpoador, ah, a zona nobre do Rio de Janeiro, trabalhar na Zona Sul tem lá seu o seu Glamour, não é mesmo, gente? tão idolatrada, tão bela e citada e recitada, em canções de amor, novelas das 9 e cartões postais - ali perto, e deixe-me me falar também do Leblon, da Lagoa, da vista linda, do cheiro de fossa, das dondocas que acham que ainda pertencem a High Society citada por Rita Lee em canção, com certeza, esta, inspirada por estas, outras, figuras, e de qualquer forma, é bom seguir pela manhã, e ver estas senhoras, não todas, sejamos justos, muitas são simpáticas e acessíveis, mas em geral, estas, outras, a quems me refiro pejorativamente, apontando o firmamento com a ponta de seus narizes, desconhecendo a palavra obrigado, e despencando-se de seus prédios, que, como elas, estão em estado de decomposição avançada; mas deixem-me falar dessa vida que ninguém vive, e da sexta feira, quando esta realmente, finalmente, redundamente, chega; das construções do Centro da cidade que sempre demoram o tempo do mandato do atual prefeito em questão para ficarem prontas; da Estação Cidade Nova, do lixo reciclável, também já citados em canção terceira; enfim, não perdamos o foco, deixe-me falar de amor, de beijos, de sexo casual, enfim, o que importa é que já não importa o que importa, já diria Sérgio Sampaio, quem está no fogo é pra se queimar, então, pra que chorar? esta cidade não vai chorar por mim, e acho que já passei da idade de chorar à toa pelas coisas, agora é rir, ironizar, deixar pra lá, afinal, desencontro, morte, desapego, e, porque deixar de citar?, o encontro, a vida e o apego, estas coisas todas fazem parte do pacote que chamamos de vida; mas me perdoem a filosofia barata, mas estou nesta mesa de bar, como havia lhes dito, atualizando meu blog antes de cair na noite, pelo celular high-tech que nem meu é, anyways, hoje é uma sexta feira, vou cair na noite, beber pra caralho, tô sem aula na faculdade a noite, porque algum fusível do prédio onde tenho aulas soltou faísca e a fez pegar fogo, e só, sei lá, só deus sabe quando terei aula novamente; mas, digamos que grande banda está por vir ao nosso estado no próximo mês? sim, naturalmente, eu também odeio cambistas, ainda bem que tenho meus contatos, e de qualquer forma, estou aqui escrevendo em meu blog e atualizando meu twitter, e a noite mal começou; sim, é bom aproveitar enquanto ainda se sabe escrever corretamente, é bom aproveitar enquanto ainda se consegue falar sem embolar-se as palavras e soltar asneiras; vamos pintar o Bar da Cachaça! e as poesias? lembro-me de quando era estudante de Letras, dos recitais no pátio, sob poucos ouvintes; e lembro-me, de quando era estudante de História, das bandas de rock, das rodas de samba, das pessoas dançando e, ouvindo pouco, porém, contudo, o mais importante, bebendo, bebendo mesmo, pra valer; lembro-me de tudo isso, e hoje já é sexta, o fim de semana vai passar como bala perdida, mas disso já estamos acostumados, e o domingo? que fazer do domingo? que fazer além de odiá-lo, de falar mal do Faustão, do Gugu, de desligar a TV, que ultimamente serve apenas pra decoração da sala, que fazer das terças feiras, dos programas de Humor óbvio dos quais já estamos cansados desde os 12 anos de idade?; que fazer da boca que se abre sem inspiração pra dizer "bom dia, em que posso ajudar"? que fazer das loucas bipolares pelas quais eu e em geral, os homens da minha geração, acabam se apaixonando? que fazer da louça suja? que fazer quando está abafado demais para ficar sem ventilador mas morno o bastante para sentir frio na pele enquanto ele está ligado? que fazer desta foto que me dá arrepios, tesão? desta boca que eu queria morder? do baseado que eu apertei mas não fumei? da ressaca que eu sei que vai me acontecer? (deus está neste instante me proibindo de ser irônico.) Novamente, que fazer da boca, em segunda pessoa, que eu quero morder? E que fazer do excesso de perguntas? Deitar e dormir.



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