quinta-feira, 8 de março de 2012

Quitutes

A história a seguir aconteceu de fato esta manhã na Avenida Presidente Vargas:

-Eu não aguento mais
-Como?
-Essa porra
-Que foi?
-Essa, essa porra
-...
-Ó lá, lá vem outra porra de ônibus, olha, olha, olha, filho da puta, passou direto.
-Eles não respeitam mais ninguém, não sei pra que fazem essas sinalizações e...
-Se a buceta do próximo ônibus passar direto de novo, eu vou pegar, eu vou pegar, eu vou pegar...

Nesse momento, o desconhecido de terno e gravata estava procurando no chão um objeto pesado. Compreendi em seguida. Encontrou, por bizarrice do acaso, uma viga de metal enfiada na lixeira alaranjada da prefeitura.

-Pronto.
-...
-Vamos ver, agora eu quero. Agora eu quero que o próximo ônibus passe direto. Vai ser melhor ainda se ele encontrar o sinal fechado. HA, como eu quero.
-...
-Lá vem outro, vamos ver, vamos ver, vem, vou fazer sinal, pera, não acredito, parou, filho da puta, viado, parou. Não, me recuso a pegar esse. Vou pegar o próximo.
-...
-Viu, você viu como ele parou? Devia estar adivinhando que eu ia fazer merda.
-É.
-Vamos ver, ó, 455, nem serve pra mim essa porra, vamos ver se ele vai parar ou não.
-Esse serve pra mim, vou pegar.
-Não, cala a boca, Á LÁ, não parou, o sinal vai fechar, fecha, sinal, porra, caralho! Passou direto. Espero o próximo.

Nesse momento eu só conseguia pensar em simplesmente pegar outro ônibus, em outro ponto. Acontece que a curiosidade mórbida de ver o circo pegar fogo em uma segunda feira às vezes é forte demais.

-Agora, pronto, agora assim, agora é meu ônibus. Vou fazer sinal, com cara normal, ó, escondi o pau, escondi o pau, ó, Á, passou direto! Eu vou atrás! Sinal fechado, é agora, é agora, seu fil...

Bem, à seguir o homem de paletó e gravata começou a bater com socos e pontapés na porta do coletivo, para em seguida quebrar seus vidros com a barra de ferro. As pessoas do ônibus, que estava lotado, começaram a gritar desesperadas. O motorista estava com cara de apavorado, tentou gritar, decidiu manter as portas fechadas e o homem de paletó começou a espancar a lataria, ainda com a barra. Antes que ele chegasse na porta de trás do veículo, por onde os passageiros começaram a sair assustados, três guardas municipais se aproximaram. Como um deles já chegou por trás, batendo o cacetete nas pernas do Michael Douglas wanna be, rapidamente conseguiram o imobilizar. A barra de ferro voou rapido das mãos, acredito que por ser escorregadia por tanto suor que o homem suava.

-Me solta, porra! Me solta dessa porra, prende o motorista viado, prende esse filho da puta que ele que é o criminoso, porra, não para na merda do ponto!
-Se acalme, senhor, vamos precisar levá-lo! Se acalme!
-Me solta, filho da puta arrombado, me solta...

Já enfraquecido, vejo um dos pequenos caminhões da guarda se aproximar, vindo direto pela Avenida Passos. À essa altura o trânsito já estava parado na pista do meio da Presidente Vargas, sentido Zona Sul. Uma equipe de notícias parecia estar passando, raridade, e pelo visto iam querer filmar a situação. Eu atravessei a rua, me dirigi à tia que vende doces em frente ao ponto de ônibus que fica ao lado do Metrô Uruguaiana, e, além de pegar 5 paçocas por 1 real, percebi que ela vendia um quitute raro:

-Deus em vida, dona, não sabia que ainda vendia balas de Tamarindo!
-Pois é.
-Tá quanto?
-10 centavos.
-Me vê cinco.

Coloquei uma na boca para lembrar o sabor e logo fiz cara de bunda.

-São amargas, né?
-Sim, como a vida
-Bobagem, menino
-Sim, brincadeira. Me vê mais cinco. E me vê dez dessa de caramelo redondinha também. Vou fazer um experimento no trabalho.

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