segunda-feira, 13 de julho de 2015

Soslaios

Vejo sombras pela minha visão periférica com frequência. Às vezes é só uma mancha de gordura no óculos, poeira ou leite em pó, mas noutras eu tenho certeza que são uma espécie catiço. Elas se mexem, dançam, rebolam, acenam. Tudo bem que tem vez que eu viro bem rápido para pegá-las no flagra e dou de cara com o fio do fone de ouvido balançando da beira da mesa. Mas é impossível que seja sempre isso. Tem vez que era só uma barata se mexendo mesmo, ter o raio de um azulejo branco no quarto favorece essas coisas, qualquer bicho passando tu já acha que é um demonho rastejando pra puxar teu pé. Deve de ser mesmo. Só que juro que teve aquele dia que a sombra tava no canto, eu virava, não achava, continuava lendo sei lá o que tava lendo no dia, daí o escuro de novo acenava, como que pra me provocar, e eu virava, e bem rápido que teve uma hora que eu vi, e olhei bem nos olhos da entidade, sei lá como posso chamar aquilo, e aquilo me olhou de volta, e tava com a vista vermelha, e pediu um dinheiro pra comprar uma cachaça, até que um segurança veio e a puxou pelo braço e é verdade, eu tava naquela Biblioteca ali do lado da Central. Não tô de deboche não, sério, porque teve uma vez que a escuridão veio e se amarrou feito cachecol no meu pescoço, eu tava deitado, e tava gelado nesse dia, mas eu não sou de amarrar essas coisas em mim não porque tenho medo justamente de sufocar assim como sufoquei quando isso veio, se enrolou, e tava quente pra carai, e eu puxando, e o negócio era peludo e fazia um barulho estranho que parecia uma onomatopeia de terremoto e eu, já com dificuldade de respirar, comecei a espirrar, engasgar, e antes de gritar ou resolver me sossegar com minha morte percebi que era meu gato que devia ter entrado aqui no quarto quando a moça que trabalhava aqui em casa veio apagar a luz. 

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