Saindo do Metrô, último trem, pré madrugada, entre a estação e a casa, acende um cigarro minuto depois e guarda o isqueiro. Solfeja mentalmente uma canção que aprendera na manhã anterior. Duas quadras faltando, passo apertado, o trecho é curto mas deserto, aparece-lhe um sujeito vindo da rua perpendicular à caminhada que o assusta e pergunta:
– Amigo, me vê o isqueiro?
– Tenho não
– Qualquer coisa pra acender
(O tabaco havia queimado menos da metade.)
– Tenho não, mas toma aí
– Valeu, segundinho
(Tentou acender o dele com a ponta da chama ainda acesa do outro.)
– Pode ficar, tô atrasado
– Não, pô, aqui, já foi, tá quase
– Não, não precisa, fica
– Cara, tô com maço inteiro aqui, não precisa...
Mal ouviu direito a frase explicativa e saiu correndo pela rua, sem virar para trás, só parando no seu portão. Ofegante, semi enfartado, aliás, pois mora no cume de uma ladeira. Esqueceu totalmente a canção recém aprendida.
Duas quadras atrás o indivíduo surpresa dá um trago no meio cigarro que filou de graça mas já o apaga e emenda no seu próprio, de filtro leve. "Por isso sempre evitei esse Marlboro Vermelho", pensa. "Quem fuma essa porra fica uma pilha de nóia só." Enquanto ele se direciona para o ponto de ônibus lhe vem a seguinte imagem, em palavras e entre aspas: "Mas, naquela noite, como numa tocha, o fogo fora passado adiante. E é isso o que importa." Sorri e toma nota no seu aparelho celular do que lhe pode ser um verso.

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