sexta-feira, 27 de fevereiro de 2015

Micropoesia para Dispositivos Móveis: Oito

Pé fora de casa, marolinha de maconha. Ninguém por perto exceto um indivíduo quase no final na escadaria que dá pra Rua Jogo da Bola. Próxima esquina, pombo partido em dois partiu sem funeral. Na quadra seguinte, cerca de 20 fiéis de fé católica entrando com padre, crucifixo de 2 metros e meio de altura e muita fé em um boteco da zona portuária. Sei que este é repleto de escudos do Botafogo, pôsters de mulheres nuas e alvos de dardos. Mais tarde eu sei que rola uma roda de samba e choro ali que me é recomendadíssima, fica na esquina da Rua Júlio Lopes de Almeida com a Conceição. 

O atraso me obriga a pegar o primeiro ônibus que aparece e, sem dinheiro trocado, desencadeio em debate com a simpática trocadora, que me pergunta: "Tem quarenta centavos?" Digo, "Não", continua, "Espere por gentileza então, pois tenho moeda nenhuma, menino." Tudo bem. Após cerca de 7 pessoas passarem pela roleta, apesar de humanas, proponho o seguinte cálculo matemático para ela: "Oi! Então, tenho uma proposta pra você. Como você tá sem troco de moeda já duas pessoas passaram pela roleta te pagando 3,50, certo? Dessas duas pessoas você já tem 20 centavos a mais de caixa que você não precisa me pagar em moeda porque é lucro, se você considerar essa diferença ao meu favor. Para não esperarmos mais duas pessoas pagando os 3,50 que completaria os 40 centavos que eu não precisaria te pagar, eu completo, agora, com essa moeda de 25 centavos, além dos 20 reais de antes. De troco você me dá 17. Você ainda fica com 5 centavos de lucro no caixa, entendeu?" Ela, "Pera aí menino que o ônibus tá balançando muito e já você me explica com calma essa sua matemática doida aí."

O dono do bar dessintoniza o canal de áudio da TV a cabo tocando sambas para passar a novela das 9. Acabou o Carnaval mesmo. Minha amiga me conta seu final de semana movimentado quando aconteceu uma festa que tinha seu próprio tequileiro-anão vestido de Chaves que, inclusive, a paquerou descaradamente. Reclamo da desumanização de anões na sociedade e isso desencadeia um debate. Concluímos que não julgamos o moço por abraçar sua opressão como profissão de vida. Aliás, o figura está melhor de vida que a gente: faz pontas de ator em um programa na televisão.

Rumo ao lar, sóbrio, brilho horizontal laranja acima descendo a avenida é sinônimo do meu ônibus chegando. Mesma trocadora. Tem quarenta centavos pra inteirar o troco? Agora tinha. Agradecemos os dois por não ter que calcular coisa nenhuma. Penso se fui machista ao abordá-la com papo matemático, lembro que sou de humanas mesmo. Avalio que se fui eu fui nem tanto pois, no fundo, queria mesmo passar um tempo da viagem conversando com a moça, cujo bom humor pra quem trabalha até uma da madrugada era, definitivamente, admirável. Mal tenho tempo de me admitir seu fã pois meu ponto chega. Nunca entendi essa válvula que o piloto vira, sai ar e abre a porta de trás do coletivo. Deve ser um sistema de pressão. Uma noite repleta de conclusões. Boteco perto de casa, promoção de dois Camels por 10 reais. "Quando saía pela Souza Cruz vendia mais", diz, entendido, o dono do bar que se embala em um forró contemporâneo desconhecido. O samba choro come solto bem na outra esquina, Baden Powell e meu xará Vinícius dando saravá aos Orixás. Salve! Durmo cedo, trabalho de campo amanhã. A espessura da camada de luz amarelada ao redor da Lua indica que amanhã fará um calor do cacete.

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