terça-feira, 10 de fevereiro de 2015

Micro-poesia para Dispositivos Móveis: Três

Avisto os olhos de ti, monstro! Cuja desnatureza me banalizam. Esse cheiro encardido de cada palavra tua cujo idioma não compartilho e a maldição que me conjuras, ameaças que me grafitas na poeira do chão do quarto. O ruído insistente debaixo da cama, o vão povoado da soleira da porta, o estalo da parede ou vindo teu terror pela janela aberta. O veneno que bebes te faz encoraja e alucina: Concluo que devo silenciá-lo com as próprias mãos e pés. A madeira ressoa o meu golpe em falso espantando seus aliados mais covardes pois ocultos! mas a ti mantenho à vista. Arrasto os móveis, sacudo as roupas caídas durante batalhas anteriores, suavemente aguardo tua guarda baixar. Rompo, por fim, a inocência do sapato novo pois pelo reflexo que me toma é esta a arma que miro e cuja sorte acerto, a seis metros de mim, a ti, monstro, planando no ar, enquanto preparavas teu modesto ataque ou, quando tão desesperado quanto eu, apenas cumpria uma má ideia isenta de sentido. Deixo seu cadáver, afinal, estendido e à mostra a noite inteira, no mesmo lugar de teu fim, para que a consequência de tua ousadia sirva de exemplo a teus iguais. 

Levanto pela madrugada para satisfazer meus assuntos líquidos pessoais e quão surpreso encontro duas de tuas próprias crias te prestando luto e te devorando a carne.

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