Olhos abertos, de repente, lábio superior e inferior da boca umedecendo-se um ao outro conjuntamente com a língua, primeiro piscar de olhos, o mais demorado que viria acontecer naquele dia. Reabertos os olhos, a procura pelo relógio, que marca dez pras onze, a janela escapando o fio de luz solar que acertou diretamente o rosto e fê-lo despertar, os grãos de poeira estendidos no ar, sente o lençol cobrindo, agora, apenas uma perna do corpo de duas pernas, estende o braço pro lado direito do colchão onde ainda há a mornidão causada por outro corpo ali presente 5 minutos antes. Ao roçar os dedos na colcha, repara e lembra que precisa aparar as unhas, a perna esquerda agora em movimento forma um ângulo quase perfeito de 61 graus entre a coxa e a cama, 20 entre o pé e a mesma superfície, e 99 graus entre as duas metades de seu membro inferior. Em um repente, outro, após por a mão esquerda sob o peito em movimento incalculado, acaba percebendo e relembrando da existência do coração, e passa a tentar calcular a média de sua pulsão cardíaca ali. Após resgatar a memória de suas aulas de primeiros socorros, acontecidas em contexto completamente diferente e irrelevante para o que aqui descrevo, chuta o valor de 87 batidas por minuto. Admite consigo que há razoável possibilidade de equívoco a respeito disso. A coluna começa a se dobrar em uma tentativa de se sentar, os pés ainda se mantém sob a cama, e o ângulo de 90 graus com relação ao colchão logo a coluna faz, mas logo se inclina para menos, cerca de 75, conforme os dedos enxugam as remelas das pálpebras, mais por reflexo do que pela existência material destas. Repara rapidamente no fundo o som da reprise de uma radionovela vindo da casa da vizinha cujo vestido de avó portuguesa com certeza estaria usando enquanto preparava o almoço para família, hoje reunida para assistir conjuntamente o jogo de futebol a ser transmitido mais tarde ou pela comemoração do aniversário de alguém. Ambas as imagens aparecem na cabeça sem permissão ou aviso prévio. Os pés ainda estão na cama. O diálogo na radionovela diz os dizeres: "Se um dia você quiser conselhos amorosos, pode pedir, é minha especialidade", e o silêncio do outro lado da conversa lhe constrange e remete, com empatia, um fio de memória que altera o batimento cardíaco para 99 bpm por cerca de 3 segundos. Depois a própria cabeça, algoz, trata de lhe salvar a alterar seus tópicos.
Em breve será meio dia novamente, e relembra que ainda prefere desejar "bom dia" a partir desta hora. Afinal, meio dia é meio dia, é a metade, o Sol no meio do seu caminho até a noite. Torna-se sua escolha decidir o que desejar até meio dia e cinquenta e nove, "um pras uma". A partir das treze horas, aí sim, se contentaria com a tarde. Pólvora, essa palavra surge do nada, espontaneamente, devendo ser o cheiro do fósforo queimado na cozinha, palpita, pois o outro corpo está preparando o café. Um cheiro de torrada também roça as células olfativas, lembra-se que existe isso de células dentro do nariz, e que sua quantidade é discrepante e arbitrária e varia de um para cada da um, conforme viu um dia em um documentário qualquer. Os pés ainda estão na cama e lembra, ainda no mesmo assunto, que certas pessoas tem quase o triplo de células de olfato, por isso, no dia a dia, varia tão drasticamente quem pode sentir determinados cheiros mais gratuitamente do que outros. Lembra do cheiro de madeira, como a que vem do violão que vendeu no mês anterior. "Vem", no presente, porque só porque não está aqui não quer dizer que tenha parado de exalar o aroma. A metáfora correspondente disso para as coisas que passaram na sua vida lembra-lhe o verso "o que foi, é o que fica". Como dizia, além deste, a metáfora correspondente que isso associa dói, mas dói menos que a unha encravada há duas semanas no dedo médio de um pé, que, aliás, ainda está e estão na cama. O grampo grampeado na beira do colchão, repara, mas a memória a descrever como isso aconteceu inexiste. O cheiro de pólvora dá lugar ao cheiro da cafeína se locomovendo pelo ar. Um fio de pão queimado também ressoa, embora o verbo se refira ao som, que importa? Associa-se também ao faro dos cães, com quem compartilha a sorte de sentir e cheirar muito as coisas do mundo, apesar de menor intensidade na empreitada. Os passos do corpo voltando de lá para ali começam a soar e se tornam mais fortes.
O outro corpo traz uma bandeja e senta ao seu lado da cama, mantendo os pés no chão. Pergunta se o açúcar do café está bom e lhe responde que sim mesmo antes de provar. A torrada de fato cheira bem, e faz questão de citar isso para o outro corpo ouvir, em uma tentativa de gentileza, seguida do travar de dentes que lhe devoraria em instantes, vide sua fome. O duplo sentido é proposital. Com os pés ainda no chão, este corpo outro se levanta e abre as janelas e o fio de Sol que dava o contraste necessário para poeira pairando no ar ser visível desaparece dando espaço a um feixe maior. Feixe que logo, com a outra janela também aberta, se torna um manto só de luz espalhado no quarto. Se há a poeira, e ainda deve haver, ninguém mais vê. A radionovela ainda ressoa, verbo este apropriado aqui, mas o diálogo indiscernível se mistura nas palavras que o outro corpo insiste em dizer. "Hoje", "tarde", "fome" tem o mesmo peso que "suicídio", "doença" ou "abacate", "abismo" ou "intifada". O corpo outro se volta a sentar, põe seus pés na cama, agora há dois pares de pés sob o colchão. Sua mão, e aqui prefiro não especificar qual nem de quem, mas sua mão, seja lá, roça o couro da cabeça pregada no pescoço alheio, que naquele instante estava inclinada, com o cuidado para evitar que as unhas mal aparadas firam sua superfície da pele. Antes que se tirem interpretações e conclusões, os dois lados do casal vivem com as unhas por fazer. A palavra "casal" surge, assim, também gratuitamente, nos pensamentos, como a palavra pólvora havia surgido momentos antes, e, ao contrário da primeira, cujo caos foi devidamente controlado, explode-lhe em pensamentos armagedônicos que preferia revisitar nunca novamente ou pelo menos a alguma hora mais avançada do dia, poupando-lhe a manhã de Domingo para situações e sensações verdadeiramente aprazíveis. Lembra-se que os pés estão ligados ao mesmo tronco que todo o resto de seu corpo por intermédio das pernas e que pode usar isso a seu favor. Assim, os pés que ainda não haviam levantado da cama até agora se põem ambos no chão. Isso aconteceu um pouco depois do membro superior esquerdo, também conhecido como braço e mão canhotos, ter virado, em um gole só, o copo de café cabeça e goela abaixo. Conforme notaria depois, o movimento brusco lhe causara ali, em um mal jeito, uma dor no ombro, mas seus cotovelos permaneceram intactos.
Em breve será meio dia novamente, e relembra que ainda prefere desejar "bom dia" a partir desta hora. Afinal, meio dia é meio dia, é a metade, o Sol no meio do seu caminho até a noite. Torna-se sua escolha decidir o que desejar até meio dia e cinquenta e nove, "um pras uma". A partir das treze horas, aí sim, se contentaria com a tarde. Pólvora, essa palavra surge do nada, espontaneamente, devendo ser o cheiro do fósforo queimado na cozinha, palpita, pois o outro corpo está preparando o café. Um cheiro de torrada também roça as células olfativas, lembra-se que existe isso de células dentro do nariz, e que sua quantidade é discrepante e arbitrária e varia de um para cada da um, conforme viu um dia em um documentário qualquer. Os pés ainda estão na cama e lembra, ainda no mesmo assunto, que certas pessoas tem quase o triplo de células de olfato, por isso, no dia a dia, varia tão drasticamente quem pode sentir determinados cheiros mais gratuitamente do que outros. Lembra do cheiro de madeira, como a que vem do violão que vendeu no mês anterior. "Vem", no presente, porque só porque não está aqui não quer dizer que tenha parado de exalar o aroma. A metáfora correspondente disso para as coisas que passaram na sua vida lembra-lhe o verso "o que foi, é o que fica". Como dizia, além deste, a metáfora correspondente que isso associa dói, mas dói menos que a unha encravada há duas semanas no dedo médio de um pé, que, aliás, ainda está e estão na cama. O grampo grampeado na beira do colchão, repara, mas a memória a descrever como isso aconteceu inexiste. O cheiro de pólvora dá lugar ao cheiro da cafeína se locomovendo pelo ar. Um fio de pão queimado também ressoa, embora o verbo se refira ao som, que importa? Associa-se também ao faro dos cães, com quem compartilha a sorte de sentir e cheirar muito as coisas do mundo, apesar de menor intensidade na empreitada. Os passos do corpo voltando de lá para ali começam a soar e se tornam mais fortes.
O outro corpo traz uma bandeja e senta ao seu lado da cama, mantendo os pés no chão. Pergunta se o açúcar do café está bom e lhe responde que sim mesmo antes de provar. A torrada de fato cheira bem, e faz questão de citar isso para o outro corpo ouvir, em uma tentativa de gentileza, seguida do travar de dentes que lhe devoraria em instantes, vide sua fome. O duplo sentido é proposital. Com os pés ainda no chão, este corpo outro se levanta e abre as janelas e o fio de Sol que dava o contraste necessário para poeira pairando no ar ser visível desaparece dando espaço a um feixe maior. Feixe que logo, com a outra janela também aberta, se torna um manto só de luz espalhado no quarto. Se há a poeira, e ainda deve haver, ninguém mais vê. A radionovela ainda ressoa, verbo este apropriado aqui, mas o diálogo indiscernível se mistura nas palavras que o outro corpo insiste em dizer. "Hoje", "tarde", "fome" tem o mesmo peso que "suicídio", "doença" ou "abacate", "abismo" ou "intifada". O corpo outro se volta a sentar, põe seus pés na cama, agora há dois pares de pés sob o colchão. Sua mão, e aqui prefiro não especificar qual nem de quem, mas sua mão, seja lá, roça o couro da cabeça pregada no pescoço alheio, que naquele instante estava inclinada, com o cuidado para evitar que as unhas mal aparadas firam sua superfície da pele. Antes que se tirem interpretações e conclusões, os dois lados do casal vivem com as unhas por fazer. A palavra "casal" surge, assim, também gratuitamente, nos pensamentos, como a palavra pólvora havia surgido momentos antes, e, ao contrário da primeira, cujo caos foi devidamente controlado, explode-lhe em pensamentos armagedônicos que preferia revisitar nunca novamente ou pelo menos a alguma hora mais avançada do dia, poupando-lhe a manhã de Domingo para situações e sensações verdadeiramente aprazíveis. Lembra-se que os pés estão ligados ao mesmo tronco que todo o resto de seu corpo por intermédio das pernas e que pode usar isso a seu favor. Assim, os pés que ainda não haviam levantado da cama até agora se põem ambos no chão. Isso aconteceu um pouco depois do membro superior esquerdo, também conhecido como braço e mão canhotos, ter virado, em um gole só, o copo de café cabeça e goela abaixo. Conforme notaria depois, o movimento brusco lhe causara ali, em um mal jeito, uma dor no ombro, mas seus cotovelos permaneceram intactos.

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