Achou num canto da sala, um chumalhaço de papel. Camalhaço? Camalhaço, achou, o título: Songbook do Chico Buarque. Xerocado, claro. Desistira de tocar de violão uns anos atrás. Desistira? Sim, digo, nesses critérios, largou de mão, amassou, jogou fora, e vinham outras partituras, que nunca aprendeu a ler, listas de acordes. Um panfleto pra alguma festa que nunca foi. Ou foi? Talvez, rasga, acha um pacote de bala melada que deve estar completando aniversário ali, atrás daquela poltrona. Comenta consigo mesmo, "ha-ha-ha, mais 4 anos podia ficar aí por usucapião", mas não abre a boca pra fazer a piada, só pensa, preguiça, nem a companheira com quem racha o apartamento ia achar graça, deixa pra lá, esquece, esqueceu. Rasga, joga, agora, um texto da faculdade: "As grandes cidades e a vida do espírito (1903)", de Georg Simmel. Não se lembra do porquê ter tirado esta fotocópia, o título faz um sentido remoto, não rasga esse, por algum motivo, guarda numa caixa, pra ler depois, essa caixa, que é de sapatos, já é a quarta ou quinta, outras caixas de sapatos, recheadas de textos ou anotações pra depois. Em uma dessas estão as únicas 3 cartas que jamais recebeu na vida. E já é muito, justifica isso com a sua idade, consigo, por outro lado gostaria mais. Para para anotar alguma coisa, "para não se acentua mais", veja a bagunça, fica de cacofônico agora, malditos gramáticos, nunca vai se acostumar com isso. Para de fazer isso para arrumar a cama, esse quarto nunca vai terminar arrumado assim, vamos, falta pouco, falta muito, falta tudo, vai, pelo menos a cama, vamos dormir hoje, tem visita vindo, olha essa sala, chama de sala mas é só um quarto mesmo, tem visita vindo dormir contigo, mentira, não tem ninguém, pega a espátula da cozinha pra arrumar o lençol, pronto. Mentira.
Estava em uma fase mais otimista do que antes, embora não exista barômetro pra isso. Digo, não ia se trancar em casa, com pijama e sorvete de passas ao rum, nunca entendeu o ódio das pessoas por esse sabor, e assistir toneladas de séries, quãopouco iria, também, se entupir de cocaína? Não, nunca teve critério bom de loucura pra se fazer na vida, vide vida caseira, digo, sempre que ia usar exemplos terminava assustando as pessoas, tipo sabendo usar verbos como "esquartejar" totalmente fora de contexto. Digo, ia preferir sair pra dançar, estava bem, até tinha voltado a ouvir Beatles, fase pré Rubber Soul. Digo, ia sair pra dançar mas sem abrir mão de uma lágrima no canto do rosto no meio da pista se acontecesse. Quer porque quer fumar, só sobrou Derby Azul, como raios um resto de maço de Derby Azul veio parar no bolso da calça? Desiste de fumar, precisando parar mesmo. Tá vendo, por isso está bem. Nunca, nunca estaria bem, veja os vizinhos estão transando, ah, essa Copacabana, mentira, estavam ajeitando qualquer coisa na varanda, mais que vida chata essa, nem pra ver uma foda ao vivo e de graça Deus ajuda. Tem um dente no vaso, a amiga pergunta de onde veio, é só um pedaço de algodão, diz, ela chegou abrindo a porta, sem bater, e odeia quando isso acontece, mas releva, estica a perna pra comprar um maço na rua, repetindo consigo "not today, my friend, not today."
"Quão pouco" se escreve separado, pode crer. A padaria tava fechada, teve que andar 2, 3 quadras pra achar o maço, feriado, aliás, nunca morou em Copacabana, isso aqui é zona norte mesmo, devia estar cantando alguma coisa de Caymmi quando pensou nisso, um pouco de cultura não faz mal a ninguém. Sentou de frente pro computador, maço aceso, suco de limão carregadíssimo, porque acabou o café, digo, porque está muito tarde pra café, amanhã trabalha, eita, já vai dar meia noite. Mania terrível de parar e não continuar, perde o fluxo do pensamento, nem sabe o que ia escrever mais, levanta de novo porque encontrou uma meia solta, estampada, sem par. Tão sem par quanto eu. Mas arrota o limão, nem sabia que limão dava arroto, e espanta esse baixo astral, a amiga saiu pra fazer qualquer coisa, termina seu Marlboro na janela, que dá pra uma avenida movimentada mas é feriado, já disse. Devia ser proibido recesso de meio de semana, quarta feira. Ou devia ter folga toda quarta feira, além de sábado e domingo. Essa pausa no meio da semana às vezes cai bem, embora as gentes se empolguem achando que é sábado, e já viu, o corpo não entende dessas coisas. Chegou carta da sua mãe, a amiga retorna, jogando a carta no chão que dá pra porta do quarto, junto da conta do celular. Carta? Mas que carta? De que mãe? A mãe não está viva, e se estivesse, digo, caso, não escreveria uma carta, nem um email, porque morreu antes, certo? Teria escrito nada, se estivesse viva seria ela a visita pra esperar, e seria ela, também, o motivo pra arrumar seu chiqueiro. Ou ela viria pra arrumar tudo, embora ela não fosse sua empregada, como adorava repetir. A possibilidade absurda até desembaçou o tédio da tarde, que logo retornou ao ler o destinatário, dois pontos: não estava escrito "mãe", e sim "Mae", sem til. Mae é uma amiga da faculdade, sem abreviação de nada, só pais malucos. Estava fazendo intercâmbio no interior da França, Reims. E a carta é só um postal. Aprecia o carinho.
Está tudo uma bagunça ainda, acabou que não fez nada. Mas aceitável. Podia mostrar o quarto, a sala, o porão, embora nem sabia se o prédio tinha um, pra qualquer um. Só via casas e casos piores e poucas exceções. Mas jamais abriria o guarda-roupa, por ninguém, novamente. Devia queimar essas caixas pra prevenir. Quebra a promessa abrindo logo em seguida, de novo, procurando qualquer camisa mais confortável pra dormir, ainda está com a roupa do trabalho. Acha um pijama verde e amarelo. Está numa fase de odiar patriotismos que não quer porque não quer usar camisa da seleção brasileira, nem pra dormir. Joga a coisa numa gaveta do pai. Não, o pai não mora nessa casa, nem em nenhuma, mas um lado escroto do passado que nem seu psicanalista sabe explicar, até porque você não contou, sempre te fez deixar pelo menos uma gaveta sua como se fosse a do "patriarca". E lá deposita tudo aquilo que não vai querer mais. Até o dia que criar coragem e jogar fora. Não está pensando nisso, está achando e acha outra coisa qualquer de algodão manchado, amassado e gastado por excesso de amaciante. Que nem você. Ri, olha pra caixa de mais cedo, medo, abre, pega e folheia o texto do Simmel de novo, pula a nota do tradutor ao final, em um impulso randômico. Adora essa palavra. O priberam já reconhece, então tá certo. Adora anglicismos. Piada. Pula a nota do tradutor, começa a ler o final de facto do texto: "Na medida em que tais potências penetraram na raiz e na coroa de toda a vida histórica, a que pertencemos na existência fugidia de uma célula, nossa tarefa não é acusar ou perdoar, mas somente compreender". Parece interessante, um dia leio inteiro. Nunca leu.

Nenhum comentário:
Postar um comentário