Você é como a pilha de frutas que me apodreceu. Estava te visualizando aqui, assim, estendida na mesa. Você que era amarela, agora cinza. Lembro do cheiro, paladar, dos primeiros pedaços seus que eu provei antes de partir viagem. Mas parti, demorei, e na volta perdi o voo, ou o trem, quiçá carroça, perdi e me atrasei ainda mais do que já tava tarde. Cheguei, a pilha de fruta que eu não quis levar na mala pra não amassar, porque ia amassar, concertezamente, frágil daquele jeito passou do ponto, demasiadamente madura. "Madura", entre aspas, até a figura de linguagem que se usa pra fruta de verdade tem a ver com a palavra que vou aqui pregar. Apodreceu, e eu não consigo jogar fora, deixo ali, cheirando, porque o cheiro ainda é bom, diferente, agridoce, deve ter a ver com a tal maturidade. Só que não calha provar de novo, os cachos sobrados, pelo gosto amargo, porque iam me pesar o corpo. Uma pena, pois queria tanto te ver revisitar a minha boca, os meus dentes, meu aparelho digestivo completo: a minha faringe, esôfago e estômago, queria te ver provar do gosto da minha vesícula biliar, das minhas enzimas digestivas, e se deslizar pelas paredes de meu intestino. Queria ser testemunha novamente do prazer que já me deu. Por isso é impossível o descarte. Então deixo ali, na mesa, dando na vista, enquanto cair bem à vista. Essa metáfora seria ainda melhor ainda se as frutas tivessem pernas pra fugir, e tentassem e ficassem acorrentadas o dia inteiro por conta disso, ou melhor,c engaioladas, impedindo a fuga e também seu furto, em caso de haver visitas curiosas, esfomeadas. Fruta em gaiola, será que tem quem faça isso? Se sim, elas ficam paradas, esperando as formigas, ou as moscas magricelas, que passam pelas grades, ou outro alguém que tenha as chaves vir comê-las. Sim, é uma coisa escrota isso de te comparar com fruta.
quarta-feira, 30 de julho de 2014
Assinar:
Postar comentários (Atom)

Nenhum comentário:
Postar um comentário