sábado, 9 de maio de 2015

Monólogo entre Cinco Paredes: Quatro (Chefe and I)

Quase toda noite sonhava que era demitido. O pesadelo recorrente favorito! E não era apenas uma conversa específica rememorada, mas uma gama grande de situações que podiam resultar na demissão. Claro, certas cenas clássicas se reprisavam aqui e ali, como sair do elevador injuriando o patrão e ele estar na porta assim que abriu ou virar uma esquina do escritório prometendo vingança em voz alta e esbarrar com ele, com a frase "agora eu te peguei, filho da puta" esculpida na cara. Situações que quase foram realidade também apareciam, como o mero ato de enviar por engano uma foto sua nua para o grupo do trabalho de email ou Whatsapp. Mas frequentemente eram fatos complicados de se repetirem no mundo real e aí que tava a grande graça! Como da vez que, junto dos outros colegas de serviço, quase morriam para capturar e matar um elefante cuspidor de fogo e, bem na hora que iam fazer um baita churrasco com a carne, chegava o raio do chefe dizendo que o horário de almoço já tava acabado e os processos não iam ser protocolados sozinhos, não! 

Sonhou também uma vez que ficava pra morrer no alto de um prédio na beira da Avenida Rio Branco, embora nunca tinha trabalhado lá, pendurado pelos dedos na barra de concreto de um prédio em construção, com o supervisor que tinha na época levantando dedo por dedo até o corpo cair: a ousadia aqui era que em plena queda, veja só, teve o instinto de erguer o dedo do meio e gritar um "vai tomar no cu!" sonoro que, bem instante antes de bater no chão da Carioca, conseguiu ouvir que foi respondido por um "então tá demitido, mermão, vaza daqui que ainda é justa causa!" Como essa frase enorme inteira conseguiu voar pros ouvidos de um cérebro espatifado no chão? Aí é coisa que só o mundo dentro daquele inconsciente explica.

Havia uma versão mais obscura e angustiante do sonho que ficava frente a frente com o patrão numa sala, sem testemunhas, tendo que implorar pra manter o emprego e jurar de pé junto mentiras deslavadas: não só não era flamenguista mas como odiava mulambos; não só odiava mas como tinha alergia à trilogia clássica de Star Wars; não só tinha alergia, mas detestava cevada, cerveja, qualquer tipo de cachaça, vinho, uva, vodka, birita, nem pintados de energético. Geralmente quando acontecia essa versão era melhor virar e pedir demissão no mundo real mesmo. 

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