quinta-feira, 7 de maio de 2015

Monólogo Entre Cinco Paredes: 3; Furto Samba

Tinha acordado com 500 reais no bolso. Foi na Lapa mesmo, digo, nem sei se aquele pedaço do Centro é Lapa ainda ou Glória. Tava debaixo de um balanço, todo sujo de areia, fedendo a cerveja, mas não estava embrigado. Sério, cara, não tava. Acho que me doparam com alguma coisa. Minha carteira tinha sido roubada, o celular também, foi o primeiro instinto bater nos bolsos e ver se ainda estava tudo ali, e não. Bateu o desespero, demorei uns minutos até me dar ligar que a identidade dormiu no bolso esquerdo da camisa. Se foi eu ou o ladrão que colocou, não sei até hoje. Só me aliviei quando comecei a fazer uma geral do que havia perdido de fato, do que estava na carteira versus o que tinha ali na hora e percebi que nem tinha perdido tanta coisa. O cartão de crédito era só bloquear, mas era tão velho que com várias letras de códigos gastos era muito difícil alguém conseguir adivinhar os dados equivalentes dos números que faltavam. O celular era velho, velhíssimo, na verdade, apesar de ter sido desses moderninhos na época, com Android. etc, eu já tinha comprado ia fazer dois anos, três anos e qualquer dia ia despedaçar em pleno uso, além da tela de touch que parecia esquizofrênica tremendo e dando coordenadas só de eu olhar pra tela. Enfim. Já me levantava, tirava a jaqueta, que é o que fedia a cerveja, quando um arrepio me deu na espinha. Meu poema. Puta que pariu, meu poema. Eu tinha escrito naquela noite mesmo, no Bar da Cachaça, com dois amigos em volta. Na verdade nem era bem um poema, tinha mais a intenção de ser uma letra de samba, não que letras de samba não possam ter qualidade poética, é modo de dizer da forma. Escrevi pra música que um desses amigos havia me cantado naquela mesa mesmo. Só tinha a melodia, que ele murmurava enquanto ia arranhando o cavaco. E eu peguei e fui escrevendo conforme bebia, o bom do frio de julho é que a cerveja demora a esfriar, embora beber gelado no frio não seja indicado pra quem sofria de sinusite, que nem eu. Mas, caralho, meu poema! Que eu havia dobrado e guardado na carteira, junto da minha última nota, que era de dois reais, eu lembro que ia passar a limpo e terminar de lapidar um verso aqui e ali e passar depois pro meu amigo ver se dava pro gasto mesmo de se ser uma letra de samba, já que eu nunca tinha tentado escrever uma. Por tudo que há de mais sagrado nessa vida, meu poema, cadê meu poema!? E eu gritando, remexendo os bolsos pra ver se quem havia me atacado, atentado, sei lá qual era o nome que ia configurar aquela agressão na delegacia depois, pra ver e torcer se quem tinha tido a breve gentileza de colocar a identidade no meu bolso ia fazer a mesma gentileza com algo tão mais delicado quanto um poema. Porra nenhuma. 

Parti para a delegacia mais próxima para fazer o B.O. E para explicar pro policial que o que me preocupava mesmo era o raio do poema? Roubaram um celular? Sim, mas era velho. Só tinha dois reais na carteira. "Meu senhor, você não entende, o que eu quero mesmo de volta é poema!" Como assim? Eu escrevi num guardanapo, dobrei, guardei na carteira, eu queria de volta! Não dava pra abrir inquérito por conta disso! Daí eu perguntei, mas e a propriedade intelectual? Não havia registrado nada, escrevi ontem, minha memória é uma merda, não ia lembrar de nada, ainda mais que já tava meio bêbado. Minto, que lembrava do primeiro verso: "Se cada vez que me negar alegria, eu vir te perdoar, Maria..." O moço que me olhava torto passou a dar umas gargalhadas e, quando parou que resolveu que ia quebrar meu galho e incluir o verso que eu disse no Boletim de Ocorrência. Eu omiti o fato que tinha 500 reais na carteira, porque daí que ele não ia me levar a sério mesmo. Chegando em casa, dormi, acordei, tomei banho, avisei meu amigo o ocorrido, não sei se nessa ordem, e ele veio e riu demais também, e falou pra deixar pra lá, que ele nem sabia se ia poder gravar aquele samba, e eu arrasado, guardei o B.O na gaveta e fui dormir. Mas eis que me passaram 5 meses, e é por isso que eu estou te contando essa ladainha toda, porque se eu tivesse lembrado, naquele dia, de mais de um verso do que aquele verso que eu falei ali há pouco, eu estava hoje milionário, camarada. Muito mais que os 500 reais de miséria que se indignaram a me pagar! Só que só com 12 palavras o B.O não ia me valer de nada. Por quê? Achei que você já tinha reconhecido a música! Escuta! Porque eu que fiquei de maluco nessa história! Me passaram 5 meses e não foi que eu me liguei o rádio e não ouvi o raio de um samba que começava justamente com a porra do meu verso, do meu poema? 

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