sexta-feira, 27 de junho de 2014

Monólogo em Areia e Dedo: Dezessete

Eu não consigo caber no meu corpo,
faço buquês de pólvora,
pleno incêndio na minha casa:
Expludo.

Eu não consigo caber neste corpo
Logo procuro outro
Eu não consigo caber no meu corpo
À falta de assunto, tragédia, desgosto
Eu não consigo caber
Mas é o corpo quem morre antes
Não consigo
Mas caibo e sobro no teu colo
Ainda bem,
Não, não caibo, não sobro
Não tem fita métrica que me prove o contrário
Barômetro que me desminta
A verdade ingrata
Consigo, num sono
Te confessar de aniversário tua beleza que encontrei
É sonho, acordo e esqueço
Eu não consigo conseguir caber
Faz quarenta minutos que o tempo parou
Arbitrariamente

Não consigo já não caber no teu corpo
Faço refrão de teus tédios, tragédias
Borro teus traços com saliva, choro e suor
Nunca me faltou água

Eu não consigo caber no meu corpo
A sobremesa vem sempre antes pra mim
Eu não consigo caber em tão pouco
Mas não acontece isso de não se caber
Então se cabe, inflama, entala, incha
Se avermelha, queima, gigante
Até se prender frágil num quarto
Só não se engolir a chave porque não cabe mais nada
Nem você
Consegue caber no meu corpo
Rimo quando quero, minto quando posso
Eu não consigo caber no teu tanto
Portanto, te odeio
Não caibo, não sobro
E a sobremesa vem sempre de novo pra mim
Não caibo, não cobro
Eu não te quero aqui
Não consigo já não caber no teu corpo
Faço refrão do tédio das cidades
Por nossa idade nestes edifícios em branco
Perdão à mudez das estrelas anônimas
Perdoa o manto negro estendido na noite

Eu não consigo caber e pronto,
Entupo as artérias de fogo, pólvora,
Sou Deus de sangue e pus:
Explodo.

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