quinta-feira, 5 de junho de 2014

Pomar/Samba

Engulo com olhos e ouvidos mais do que me cabe o próprio estômago
Me invento sobrenomes, endereços e cores
Porque me descoloro, não me chamo, não moro
Sangro melhor de madrugada
Cobro da noite a vaidade que me falta
Que me falta a Primavera, fresca e nua
Me falta um tal pomar pra de quem roubar a fruta.

Mas eu também dancei ciranda
E errei, descompassado como um retrato em dez por quatro
Cai e dormi no azulejo frio do seu quarto
E resfriei
E sinusite
E me engasguei com qualquer coisa
Se eu engolisse o mundo inteiro não engasgava assim
Mas olha o olho grande: eu quis você.

Mas eu também sei a saudade
Sá nostalgia inútil, torta
E porca
De tanto aquele tempo que podíamos dividir: o mesmo laço
Mas eu também tenho saudade
Quando não me permito caber, meu bem, 
Em outro abraço.
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E um belo dia, saindo de casa com a noite enrolada embaixo do braço
Abriu as seguintes aspas:
"Rimo quando quero, enlouqueço quando tenho juízo
Pisou errado
Correu de banda
Jogou um fado
E ainda repitiu mais sete vezes em ritmo de samba:

(Batucando)
'Pequei tudo
Pequei pouco
Pecava mais não ia pro inferno assim
Pequei como
Pequei quando
Pecava onde te via todo dia aqui.'"

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