Um pote de tinta guache, um ponte de tinta para tecidos, que não deve ter substantivo próprio que resuma sua qualidade nesta língua. Pincel respectivo ainda manchado de azul, loção pós-barba, leite de alpiste que cura diabete, fio do fio dental perdido pendurado na bica, que tem um pingo pingando na pia, que por sua vez pinga pelo cano de baixo no chão; e o chão pingando água em outro lugar subterrâneo que agora está transbordando; o espelho refletindo duas discretas cáries não tratadas nos dentes de baixo. Este banheiro dava um poema concreto.
A pegada do surdo que por falta de assunto só marca a cabeça do primeiro compasso. O primeiro compasso, atrasado, vira síncope, a falta de coordenação parece improviso, o cigarro queimando no elo da beira do latão vazio de cerveja Schin (esse cigarro queima ignorado), a dúvida de que vórtice no espaço tempo trouxe este latão vazio de cerveja Schin; diabos, o nublado do céu pingando garoa, a garoa pingando na telha, tão discreta, tão silenciosa que sequer é acompanhamento rítmico do surdo que não a ouve; tão leve que parece que paira no ar para esbarrar na cara, mas tão sutil que não lava nada. Esta varanda dava um poema concreto.
A janela de madeira fechada porque quebrada, as pernilongas espécie culex despertando de seu sono debaixo dos móveis para se alimentar e pôr seus ovos, os pontos pretos na superfície da água parada esperando a garoa lá fora apertar até vazar do teto, os sufocar e nascer; o vizinho evocando o Trem das Onze, o samba, o piso de madeira vibrando ao som, engraçado como a madeira vibra, provavelmente como sua forma de árvore vibrava também; sendo erguidos do chão, os poemas xerocados do fanzine jamais lido tremendo silenciosos ao contato das mãos que os levantam, hoje sim, hoje sim, hoje não. Muito embora vagabundo, este quarto dava um poema concreto também. E, como podem ler, um daqueles de pouca generosidade.
(Creio eu: ao contrário desta cidade.)
(Creio eu: ao contrário desta cidade.)

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