As noites são frias. Mentira, as noites são quentes, são quentes pra dedéu. Ninguém mais fala "dedéu", agora todo aumentativo é "caralho", "pra caralho". Como eu dizia, as noites são frias, mas são quentes. Eu queria que as noites fossem frias. Falo diretamente do Verão da cidade do Rio de Janeiro, no meio de um janeiro qualquer da década de 10, século XXI. Queria que fosse frio, pois acredito que o frio combinaria mais comigo. Com esse Câncer que não passa. E com meu sorriso sem graça. Mentira, eu queria que estivesse frio porque tenho mais roupa de inverno e odeio camisa regata. Estou até feliz, na verdade. Feliz porque descobri hoje cedo que Papai Noel realmente existe, apesar de não subir nem descer morro pra dar presentes. Mentira. Estou feliz porque descobri que nasci com asas, motoras e acopláveis às costas, e que meu pai escondia-as de mim no quarto atrás da casa. Mentira, claro. Estou feliz porque minha gata amarela resolveu novamente dar as caras, após semanas desaparecida. Queria comida. Ingrata, nem agradece os cartazes que pensei em fazer e espalhar pelo bairro à sua procura, cartazes que nunca fiz ou espalhei. Estou feliz na verdade porque arranjei uma perfeita desculpa para próxima vez que me perguntarem porque meus gatos não têm nome próprio. Digo, eles têm, quando os ganho ou encontro, os batizo, com nomes cacofônicos e que são atribuíveis tanto pra macho, quanto pra fêmea. Mas nunca os chamo pelo nome, e volta e meia acabo esquecendo do que os batizei. Bem, da próxima vez que o tópico surgir, direi que eles não têm isso porque o conceito de "nome" é uma categorização e recurso social humanos e os gatos e animais em geral se identificam entre si de outras formas, como por exemplo, pelo cheiro. Logo, pouca diferença faz para eles mesmos se foram batizados ou se alguém se lembra de seus aniversários. Preciso voltar a ler Jacques Derrida.
Estou feliz e à seguir enumero uma lista de boas razões para estar. As roupas no varal secaram, durante a tarde se fez umas 2 ou 3 horas de Sol, no provável horário de almoço das nuvens que nublavam o quintal. Até o colchão eu tirei pra tomar um ar. Mentira, o colchão ficou aqui dentro, com cheiro de suor, mas podia ter acontecido assim. Bom motivo para rir é o meu novo dicionário de língua portuguesa Aurélio, coisa que eu não comprava desde a quinta série (hoje Sexto Ano). Vem até com ilustrações, agora. Também me alegro porque passei da página 50 de Grande Sertões Veredas, e acredito que dessa vez termino de vez por fim de ler. Outro motivo é que lembrei de comprar mais papel higiênico antes que acabasse. Ou que achei meu exemplar perdido de "Amor de Perdição" na faxina que fiz mais cedo (que estava enfiado debaixo da pia da cozinha e só os deuses sabem como ele foi parar lá). Ou que finalmente posso deixar as janelas abertas e ignorar os mosquitos graças a um inseticida que me recomendaram. Ou porque esses remédios, cetoprofeno, cetopralá, cetoseilá têm conseguido dopar as dores da minha perna. Ou que o teto daqui de casa resolveu parar de cair. Ou que os vizinhos pararam de ouvir pagode alto até tarde. Ou porque estamos em horário de Verão e o Sol dura no céu até quase a madrugada. Ou porque eu tenho visto muitos vestidos vestindo garotas pelas ruas. Ou porque estou começando a sentir cheiro de terra molhada. Ou porque dei risada e cheguei a mudar de calçada quando me apareceu uma flor no caminho. Essas futilidades que listei me parecem bons motivos para estar feliz. Mentira.
Estou feliz e à seguir enumero uma lista de boas razões para estar. As roupas no varal secaram, durante a tarde se fez umas 2 ou 3 horas de Sol, no provável horário de almoço das nuvens que nublavam o quintal. Até o colchão eu tirei pra tomar um ar. Mentira, o colchão ficou aqui dentro, com cheiro de suor, mas podia ter acontecido assim. Bom motivo para rir é o meu novo dicionário de língua portuguesa Aurélio, coisa que eu não comprava desde a quinta série (hoje Sexto Ano). Vem até com ilustrações, agora. Também me alegro porque passei da página 50 de Grande Sertões Veredas, e acredito que dessa vez termino de vez por fim de ler. Outro motivo é que lembrei de comprar mais papel higiênico antes que acabasse. Ou que achei meu exemplar perdido de "Amor de Perdição" na faxina que fiz mais cedo (que estava enfiado debaixo da pia da cozinha e só os deuses sabem como ele foi parar lá). Ou que finalmente posso deixar as janelas abertas e ignorar os mosquitos graças a um inseticida que me recomendaram. Ou porque esses remédios, cetoprofeno, cetopralá, cetoseilá têm conseguido dopar as dores da minha perna. Ou que o teto daqui de casa resolveu parar de cair. Ou que os vizinhos pararam de ouvir pagode alto até tarde. Ou porque estamos em horário de Verão e o Sol dura no céu até quase a madrugada. Ou porque eu tenho visto muitos vestidos vestindo garotas pelas ruas. Ou porque estou começando a sentir cheiro de terra molhada. Ou porque dei risada e cheguei a mudar de calçada quando me apareceu uma flor no caminho. Essas futilidades que listei me parecem bons motivos para estar feliz. Mentira.

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