quarta-feira, 16 de janeiro de 2013

Um Dia Um

Inverno. Não, inverno não, nem sei o que é isso, salve uma semana ou duas no meio de julho. Verão. Café. Praia. Sol. Pele. Câncer, câncer de pele. Não, embora me pareça interessante tratar isso. Se um dia um escritor pudesse tratar esse tema. Ninguém fala disso, é estranho. Pessoas passam as 12 horas de um dia em horário de Verão na Praia e ninguém pega câncer? Sexo, trepação, vida vazia. Escritora alcoólatra. Não. Demodê. Charles Bukowski já deu, embora ainda exista. Mundo da moda, design. Preconceito, Estácio de Sá, a faculdade. Arquitetura versus Design. Um arquiteto se apaixona por uma estilista. Desenrolar um relacionamento disso. Não, chega de relacionamentos. Rasguei suas fotos: taquei pela privada os seus presentes (os que cabiam privada a fora, os que não cabiam eu) queimei suas calcinhas. Os livros que você me deu não, porque eles não têm culpa de nada. Suas calcinhas, sim. Você não está lendo isso. Terra molhada. Já falei demais de terra molhada. Adoro o barulho de água batendo na telha da lavanderia. Vejo raras telhas hoje em dia. Se um dia um eu construir uma casa, ela terá telhas. Não, isso não é prático, exige manutenção, gastar fortuna com pedreiro. Lage. Boa. Os amigos do mundo acadêmico acharão graça. Desconstrução simbólica na reforma de mobiliário urbano. Casa engajada. Chega. Pra comer, comecemos com coisas simples. Café. Sim, tem café. Ótimo. Não, amanhã preciso acordar cedo, amanhã preciso acordar muito cedo, abrir o jornal, na sessão de empregos, e caçar um novo. Dar uma passada e uma risada na sessão de garotas de programa. Sim. Frutas. Tem, banana, maçã, kiwi. Quiuí. Piuí. Fazia o trocadilho do nome da fruta pra onomatopeia do movimento do trem com 5 anos de idade. Pão. Acabou, mas tem biscoito de gergelim. A melhor parte de gostar de gergelim é que ninguém gosta e pede um pouco. Pronto. Agora, filme. Preguiça de encarar algum dos duzentos filmes do Woody Allen que me faltam. Talvez continue dando pinceladas na Nouvelle Vague. Desde quando me tornei tão culto? Sim, oitava série. A sensação de saber muito, hoje nada, sobre coisas que os colegas faziam ideia nenhuma à existência alguma. Não, mentira. Não sou culto. Gosto de Axé, de Funk Melody. Mé-lô-ri. Essa última sílaba com som de "ri" em padaria. Quase. Algo mais simples, vamos. Vai chover amanhã? Terra molhada, já falei de chuva, certo. Você. Qual foi a última vez que me ligou? Ainda fuma como antes? Eu tentei parar há duas semanas, e estava indo bem. Exceto que para escrever esse trecho tive que acender um cigarro e daí deu nisso. Estou fumando agora enquanto escrevo essa frase. Desculpe, sei que você odeia cigarros, mesmo fumando também. Você não está lendo isso. E nenhum cigarro está aceso. Agora está. Um último, juro. Juro pra mim mesmo, digo. Boemia. Qualquer coisa de Nouvelle Vague me dá vontade de fumar. Imbecilidade. Aqui me tens de regresso. O que agora? Apago o cigarro, o resto da cerveja pela privada, outra faculdade trancada.  Esses dias comecei a escrever um soneto, mas não consegui terminar. Porque eu sou assim. Tinha um verso que era mais ou menos... como? Cadê? Anotei num pedaço de papel higiênico. Difícil escrever em papel higiênico de banheiro público no bar embriagado. Bukowski de novo? Não, esse eu tentei escrever no engarrafamento mesmo. Deve estar no bolso da calça, pera. Achei: "P'ra mim, basta um dia ou noite/ Uma bala  assim, perdida entre os dentes/ Ou achada com a pólvora e o ventre." Parei meio aqui porque só conseguia pensar em "açoite" pra rimar com "noite". Veio o verso "que se cala, que se banha n'orgia", mas não combina, perdi o fluxo. Isso nem é dodecassílabo, é? Nunca mais terminei um soneto. Onde eu parei? Sim, romance. Arquiteto, não. Romance no ambiente de trabalho. Podia me inspirar na minha colega que estava noiva aos 19 anos e mantinha um romance por fora com outro colega nosso, alcoólatra e viciado. Não. Amor. Uma palavra, 6 bilhões de significados. Ou 7? Um pra cada humano. Tire da conta recém nascidos, certo, considere de 2 anos de idade pra cima. Não, considere os que tiverem 50 anos em diante. Com que idade se aprende a fumar? Parei aqui. Jurei que não ia escrever palavrões dessa vez. Estou conseguindo. Aula de linguística. Peguei o dicionário, ainda nisso, e lá aponta que amor é uma "emoção, forte afeição e ligação pessoal para com outra pessoa ou coisa". Em alemão é Liebe, a palavra em polaco é Miłośc, em japonês é uma sílaba só: "Ai", representada num ideograma que é mais ou menos assim 愛. Já que eu não consigo mudar de assunto, vamos falar de amor, vamos falar amor. Amor. Amor. Amor. Amor. Amor. Amor. Amor. Amor. Amor. Amor. Amor. Amor. Amor. Amor. Amor. Amor. Amor. Amor. Amor. Amor. Amor. Amor. Amor. Amor. Amor. Amor. 26 vezes? 27. Com esse trecho inútil meu texto ficou 156 carácteres mais longo. Me disseram uma vez que amor só presta pra isso. Pra preencher lacunas da vida. E deixar um espaço enorme vazio desértico quando se for ou acabar, espaço que sempre parece maior do que o que você tinha antes:        


                                                                                                                                                            
                                                                                                                                                                   . Vê as bolas de feno? Nossa, chega. Desde quando comecei a me relacionar com pessoas tão melodramáticas? Ah, sim, primeira série. "Fulano te ama". "Ah, fulano, mas eu não te amo, então você não pode me amar, tá bom? Não quero te machucar". E eu só queria um beijo. Já passei por coisas piores. Aprender saudade de verdade. Chega de trauma. Coisas felizes, vamos. Almôndegas. Sílabas engraçadas, significado bom. Hemorroidas. Que palavra feia. Tão feia quanto o significado dela. Rim. Pra quem aprende português, lembra "sim", que dá uma sensação positiva. Em inglês é kidney, que até eu aprender o que era me parecia mais um nome de gente. Mas é rim, é um órgão que dá pedras e dor. Isso me lembra que eu estava lendo Poema Sujo, do Gullar. Ver inspiração. Trenzinho caipira, uns papos bons e metafísicos sobre corpo que, sim, sem meu corpo não existe o Vicente, não existiria a Clarice. Percebi que não, não dá pra fazer poesia da poesia dos outros. Dá pra fazer canção. Como fizeram. O contrário, não. Que "não"? Deve ser o centésimo "não" que escrevo hoje. Estou negativo. Não. Digo, sim. Sim. Me sinto otimista. Sinto-me, certo, sinto-me otimista. Sinto-me leve. Lembro da encarnação que nasci pardal, e voava pela vizinhança veloz porque meus ossos eram ocos e porque meu corpo era aerodinâmico. Tornava-me leve no ar. Quão leve quanto possível. Uma pena não ter mais asas desse jeito assim. Ó, isso dá um verso. Um dia um gato veio e me almoçou. Outro verso. Podia ter emendado um bom poema nessas imagens. Já gastei a ideia aqui. Poxa. Preciso aprender a usar vírgulas.

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