domingo, 9 de março de 2014

Monólogo em Areia e Dedo: Sete

Sinto sua falta
Como se me desaparecessem as pernas
em plena São Silvestre
Sinto sua falta
Como faltam ciclovias
e bicicletas em nossas capitais

Sinto sua falta
Como a quem falta atendimento
na UTI do hospital público
Como falta a glicose em quem tem
hipoglicemia
Como quem só mata aula
reprova por falta
Como quem salta a janela
sem paraquedas
Como quando falta tempero
na comida
Como quem não quer só comida
também quer saúde, diversão, e sorte
Como geladeira vazia
Durante a larica
Como uma gafieira fechada
Silencia a madrugada
Como se um trecho do seu corpo
Tivesse me passado na visão periférica
Como um fantasma
Como um susto quando
Não passa o soluço
Como faz falta a trema
em equidade
Como quem odeia política institucional
não quer reforma, quer revolução

Como a quem falta sexo
O nexo
Como a quem falta verbo
sobram adjetivos
Como se me faltassem os corpos celestes
A gravidade
Como se me faltasse o silêncio
e eu fosse
Só multidão

Tu me faltas e eu te amo como quem ama a guerra
Como quem anda com granadas
escondidas na carteira de identidade
Como um mendigo, embriagado
com a boca da garrafa de cachaça
cicatrizada no buço
Como viciados em cocaína
amam cocaína
Como quem tem a alma acariciada
por um xamã indígena

Eu caminho mas me furo as solas, as nucas
Me falta a corda bamba, a queda
Como me faltaria o cavaco
se eu soubesse tocá-lo
Como beijar a própria colcha
Como abraço sem braço
Como uma nuvem de chuva
no meio do Pacífico sem banhar ninguém
Como atentado terrorista em uma das 67 luas de Júpiter
Como quem comemora o aniversario de morte
do inventor dos controles remotos
Como uma ilha esquecida por sua antiga Colônia
declarando independência
Como quem ainda colecionará selos daqui 100 anos
Como uma telefonista
se a distância já morreu.

Sinto sua falta como se me faltasse
o café com cigarro pela manhã
Embora eu não fume
Como se eu quisesse dizer mais um verso a respeito disso
e me faltasse espaço
embora não haja
embora até queira.

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