segunda-feira, 24 de março de 2014

14:15

Às vezes tenho que olhar o seu rosto pra lembrar da noite. Cerveja não cumpre mais essa função. De vez em quando seus olhos me lembram alguma estrela, mas só às vezes. E sei lá que estrela, astrologia aqui é contigo. Também me dá uma vontade de olhar fixamente o seu riso e nem precisa ser o seu, pode ser o de sua irmã, do acessorista do elevador, da telefonista, da nova estagiária, pode ser também o que só eu enxergo nas nuances de uma tomada na parede. Estou mais injusto do que bala perdida em comunidade carente. Sim, eu sou babaca. Você não me prometeu nada. Preciso contar de novo os passos com os paralelepípedos da rua que leva pra sua casa e você sabe como é aquela ladeira. Preciso pensar em você, em parar de fumar, no prazo que acaba em três dias e eu sequer comecei. Preciso atrapalhar o caminho dos carros, mesmo que moremos no Rio de Janeiro e que qualquer dia desses eu possa ser atropelado. Faz bem também me irritar por qualquer coisa embora eu raramente faça isso (ainda que você discorde). Faz bem queimar minha língua com o cigarro mas nem tanto com o que eu digo. Não sirvo pra poeta. Acontece de se beber água de chuva e engasgar, se molhar no chão como se fosse mar, de se mudar pra Madagascar, mas isso não é poesia, eu já disse. E só se começa a pensar depois do primeiro litro de café. Eu sei do feriado e que isso não são horas pra se estar de pé. Quando cavouco essas fotos me dá um aperto no tórax mas não é ataque cardíaco. Sempre me perco no caminho entre a cozinha e o quarto. Vem um cheiro de queimado, mas não é suicídio. É o vizinho fazendo almoço. O apartamento está espaçado, você ficou com meu cachorro. Porque você comprou. Mas era presente. Deixa. No guardanapo há alguns rabiscos. É só um endereço com CEP. Uma camisinha no chão do banheiro. Não foi usada, caiu da minha carteira. Você provavelmente nunca mais vai precisar de uma, acredito. Um dia ainda boto fogo nessa casa. E eu sou Flamengo. Você adorava minhas piadas. Maldita ideia de revelar esses filmes. Astronomia, certo. Às vezes tenho que olhar o seu rosto pra lembrar do medo da morte. Envelhecer não surte mais o mesmo efeito.

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