domingo, 10 de novembro de 2013

Simetria

A primeira garota que eu já amei virou um homem durante um feriado de Corpus Christi. Na mesma época que eu deixei de viver de aluguel e ocupei um prédio abandonado no centro da cidade. Tatuamos nossos nomes nas costas um do outro e nos mudaríamos para Teresina, antes da grande enchente de 1989. Ele, ela na época, aprenderia a tocar acordeão e nós viveríamos de fazer música na rua, eu no agogô a acompanhando. Nossa primeira filha se chamaria Catarina, porque Sofia, a primeira escolha, seria tão comum quanto "Fernanda" ou "Renata" nessa próxima geração. Meu amor era leonino, por isso sempre tinha opiniões fortes sobre variadas coisas, o que a tornava irritante diversas vezes. Nunca conheci ninguém com tanta certeza. Na dúvida, terminei a relação, mas esqueci uma garrafa de Jack Daniel's na casa dela. Sem ter cara para voltar e pedi-la de volta, a garrafa, me tranquei no porão e fiquei 6 meses sem beber. Até receber um telefonema anônimo que me revelou que a primeira garota que eu já amei transou com um homem em um banheiro público durante o Carnaval da cidade maravilhosa de 2007. Machista na época, me deixei ferir de orgulho. Mas a primeira vez que eu morri de verdade estava em baixo d'água, de onde ouvi que ela queria outra pessoa e terminei nossa relação na frente, embora fosse óbvio que fosse este o intuito dela ao começar o assunto. No fundo, depois, culpei tudo o fato de não termos conseguido passar para o mestrado na mesma cidade. Ela queria estudar balé, mas não conseguirá manter sua dieta, ganhara peso e estresse, suas performances caiam de qualidade. "Esporte maldito", dizia. Talvez por isso tenha mudado de vida. 

Eu, por minha, me perdi logo em seguida, não sabia mais nem o que era saudade ou cartões postais. Passei as férias vivendo de sorvete napolitano pouco antes da primeira chuva de meteoros que a cidade do Rio de Janeiro presenciou. Na mesma época recebi seu e-mail, me contando as novidades, que tudo andava bem. Exceto eu, que deslocara o dedão do pé esquerdo. Vivia à base de remédios. Logo em seguida não sabia mais o seu novo nome. Tanto que certa vez, pasmem, me perdi em alguma esquina de Copacabana, recobrando a consciência com um grupo de jovens tentando me ofender por estar de saia curta. A escuridão disfarçou minhas estrias. Não sabia mais pra que lado ficava o Centro da cidade. Recebi um telefonema, a pessoa do outro lado tocava um piano, uma sonata. Mentira, estávamos no Brasil, ela tocava um cavaco, um samba, ou alguém tocava ao lado dela. Ou ainda nada disso. Me dizia para estar lá às 3 da manhã do dia seguinte e eu estive. Reconheci a meia-calça pendurada no varal de longe. Trocamos um abraço e um beijo, conheci seu novo homem. As coisas iam bem, só teriam que se mudar em breve. Muito se fala da bolha imobiliária, ainda não fecharam casa própria. Nova Iguaçu é uma opção. Eu queria me manter por aqui também, mas devo botar o apartamento pra alugar, combinei com a corretora. Cocaína não cai do céu. Verdade ou não, soa bem. A segunda vez que eu morri foi naquele trem da volta da casa dele. Não por dor de cotovelo, mas pelo calor, 3 de dezembro. Fazia tempo que não comia tanto açúcar por 1 real. O primeiro garoto que eu amei se chamava Daniel e dividia suas bolas de gude comigo. Decoramos juntos "Faroeste Caboclo" inteira. Da terceira vez que cheguei em casa, o  meu companheiro da época havia me abandonado, um bilhete colado em post-it no monitor selou a relação. Nem lembro o que estava escrito, mas senti gratidão por ter deixado nosso casal de gatos bem alimentado e comigo. Ela sempre odiou gatos, porque haveria de levá-los? Meu último pedido tinha sido para comprar uma dúzia de ovos, arroz, que tinha acabado, e ração pros bichanos. Cadê? Pasmem, estava tudo ali, em cima da tampa baixa do fogão. Esqueceu uma calcinha atrás da geladeira. Vou guardar, caso ligue perguntando. Uma boa pessoa, que seja feliz. 

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