O silêncio se quebra fácil. Até um bocejo o desfaz por dois segundos. Até um zíper se abrindo ou fechando. Até se coçar a cabeça. Até a poesia, se dita em voz alta. Até esse poema bobo, se amplificado. Bem baixinha, até uma ereção. Até o som da ponta do lápis quebrando, a caneta caindo no chão da Biblioteca. O cachorro reclamando de fome quebrou o silêncio. O coral de moleques na rua te acordando os pais pra te chamar pra jogar bola, também. Sua namorada te chamando pra deitar.
Mas, disperso no vácuo, nada perturba o silêncio. Nem gritos de torcida. Nem sua respiração, seu coração batendo. Nem a enchente em plena segunda feira. Nem a sexta feira. Nem o ano novo, réveillon. Nem os seus erros gramaticais. Nem esquecer uma tolha molhada em cima da cama. Nem o choro de suas crianças. Nem um samba enredo. Nem uma revolução, nem uma nota de rodapé. Nem orgasmo. Nem a Aquarela do Brasil, nem mesmo na voz de Elis Regina, quebram o silêncio no espaço. Porque o som, nele, não se propaga.
Portanto,
sejamos terráqueos
e façamos silêncio
apenas quando nos convir.

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