sexta-feira, 16 de outubro de 2009

Quinze

Sabe quando chove e você quer guardar segredos pra si mesma e bem longe dos pais, e fica do lado de fora de casa encolhida em um canto coberto da varanda fazendo pouco barulho para o cachorro latir para o outro lado e rezando pra ninguém tirar o lixo dentro das próximas cinco horas, pra que você possa ter um tempo seu e só seu sem divisão com terceiros e quartos? Sabe quando o final da tarde já se aproxima e faltam 5 minutos para a hora na qual você usualmente já deveria estar dentro de casa, minutos que você gostaria de poder estender (com as duas mãos em um gesto de preparação de abraço em falso) pelas próximas 15 horas? Ou quando tudo o que você gostaria era abrir a porta de casa e ler o bilhete de seus pais colado com durex na tela da televisão escrito "fomos nos matar ali na ponte da Rua 15, por favor, coma o macarrão em nossa ausência"... E dos dias que seus passos batem fortes contra o piso já molhado da portaria e você espanca aleatoriamente o botão chamariz de elevador (ou seja que raio de nome dão a isso), que você sobe e desce apertando cada um de todos os 20 andares do prédio, e depois de novo, de forma aleatória, e depois indo até o sexto andar seisentos e sessenta e seis vezes, ou até o porteiro vir perguntar o que há de errado? Você vai molhar o corredor, socar a porta da lixeira, desejar achar o defunto da dona Maria e do senhor Bonifácio amarrados em grandes sacos pláticos negros, e mesmo que encontre nada, vai fingir de conta que viu os corpos putrefados, se achar uma gótica por isso, e sorrir enquanto gira a chave da porta. E quando achar a casa vazia, as camas arrumadas como eles deixaram, janelas fechadas, butijão de gás seguro, tomadas desligadas, você vai acender as luzes e ouvir "SURPRESA!" do vento que uiva ao vagar pelas escadarias do prédio. Esqueceram de seu aniversário ou você que ainda não se deu conta que não mora mais aqui?

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