quinta-feira, 23 de fevereiro de 2012

O Canto das Araras

Meu coração suburbano mal sabe que bairro cantar em canção,
Vindo de que capital minha voz mal vinda se achegou?
Que tempo divide minha garganta e tosse,
Que mal sabe se centro, zona norte ou zona sul;
Que tempo versa se essa peça não é sua, sangue mato-grossensse, paranaense e asa sul:

Candango sim, e de Brasília à Goiás, vim de camboio à Corumbá.
Meu avô índio, se banhou no Amazonas, e foi lá se apaixonar por minha avó que é Portuguesa
Família toda já de avião foi pra São Paulo ganhar a vida e coisa e tal;
Eu de metido inventei moda: dois Rios Grandes, resolvi e me aventurei,
E à pé mesmo desci e subi esse país, comendo brisa, bebendo mar.
Lá no Recife aprendi a pescar;
Em Salvador aprendi a sambar;
Com os Capixabas descobri à pôr o Sol;
Porto Alegre quem me ensinou a engatinhar;
Sem simbolismo, enfim de volta, fiquei no Rio mesmo, criando Araras,
Bem por acaso, me enamorei, fiquei, casei com uma francesa aqui de Férias.

Criando Araras num cativeiro clandestino,
Levava os bichos pra Ipanema, numas gaiolas, pra gringo ver,
Ganhava um troco e logo mais montei a minha casinha,
Meus três filhos tijucanos, cariocas, com sotaque,
Nossa casa, três quartos, sala, cozinha, vista pra Saens Peña,
Gostei porque lembrou minha infância em Santa Cecília,
O canto das Araras da janela infernizava os vizinhos,
Criar o bicho logo depois foi proibido, mas já estável, resolvi fazer outra coisa
Artesanato da patroa e o violão de porta em porta;
Fui lá levar minha batida bem treinada de Norte e Sul;
Toquei na Lapa, Copacabana, até me chamaram de volta pra São Paulo,
Onde toquei umas dez vezes;
Acontece que a patroa ficou famosa, vendeu bastante argila,
Que eu fiquei pela porta de casa mesmo cantando, casal artista.
Filhos criados, viraram todos arquitetos,
Talvez da mãe tanto brincar de desenhar e esculpir,
Aqui no hospital tá tudo bem, mandaram flores e uns postais,
O diagnóstico não é bom, mas tudo bem,
Quem vem,
Quem mem,
Esqueci,
Quem mais,
Quem vai:
E mês que vem vamos nós todos pra Dubai,
Antes que o mundo acabe,
Ver o prédio novo que meu filho velho construiu.

Meu coração pelicano mal sabe o mundo - quanto mais uma canção,
Vindo da capital minha voz bem vinda se perdeu e se encontrou,
Quem fim de quem que como que nasceu porquem aonde,
Que tempo divide o tempo que divide o verso que apaga o resto?
Quem rio ri o rio que morre de rir de riso tanto gozado,
Lembrei muito de minha mãe, filha de português com índio,
Me cantando dos braços quemvaiquemvemquerique bom dia:
Que verso versa se essa peça é carioca e mato-grossensse; Paranaense e Macapá?
Quem nasce no Macapá é o quê, minha mãe? - "É gente", ela respondia.

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