segunda-feira, 9 de novembro de 2009

Tuberculose

Rabisco o sol e o céu nublado na marca no guardanapo que a cerveja deixa, tusso a noite que já foi no trago que ela deposita no meu céu da boca enquanto faz que me beija e quer. A hora passa, o sono passa, ela acorda com tosse e tenta abrir a porta do quarto que eu tranquei ontem ao entrarmos à cópula e procura a chave que engoli enquanto ela se despia. O quarto se aquece mais conforme o meio dia se aproxima, e toca a ebulição quando ela me joga para fora da cama com socos, calcanhares e garras. Com 8 ou 12 riscos avermelhados se juntando aos outros das minhas costas, eu rastejo rumo a pia resmungando a dor que infla minha cabeça enquanto ela grita sem parar até parar. Começo a tossir também. Levanto a tampa da privada, cago, lembro do que fiz, e tento devolver a chave de volta ao mundo. Provavelmente as misturas químicas ingeridas da noite anterior são de grande ajuda, e a chave volta, esverdeada, para palma de minha mão. Ela já está quieta, dormindo e arquejando mais tranquilamente, à pose fetal na beira da cama. Deixo a gravidade deitar minha cabeça contra os lençois e espero o teto voltar e me dizer que horas são. O sol que rabisquei concretiza sua vingança, brilhando branco sob minha face, o céu resolve ficar azul por teimosia: ela, levantada, sonâmbula, nauseada, escancara as venezianas novas do hotel de qualquer jeito, e se arremessa de um qualquer jeito novo em cima do meu corpo que eu mal dera por falta antes daquele determinado instante. Ao lamber meu busto e pescoço ela acaba por adormecer outra vez, bem no meio de mais um acesso de tosse.

Os corpos dos pobres coitados suam seus rios e a camareira os desperta enfim ao espancar a porta do quarto. Na beira da rua, ele levanta seu pescoço para tentar ver que horas eram no relógio da Central. Ela já caminha por conta própria numa direção contrária, e, quando ele nota, já deve estar lá há uns 15, 17 metros de distância. Daria tempo de perguntar aonde ela vai, o que deseja, o que tem feito, afinal de contas. Mas as únicas notas que suas cordas vocais solfejam se perdem em mais uma tísica e seca convulsão, talvez seguidas de um quase ininteligível "desculpe".

Um comentário:

  1. É engraçado como o narrador protagonista, recém acordado e ainda numa semi-embriaguez, descreve lúcida e secamente a sua manhã. Ele consegue falar sobre uma situação intricada, de doença e angústia em quarto de hotel, sem expor nenhum de seus sentimentos. Isso aumento muito o impacto no leitor, pois as palavras cruas e as frases rígidas extrapolam aos olhos de quem lê o estado de amargura em que se encontram as personagens.

    A mudança do tipo de narrador, aparentemente, pode denotar uma maior objetividade ao conto. Mas, ao visualizarmos de longe o casal se afastando, percebemos o quanto o subjetivo das personagens é mantido pelo narrador. Sequer sabemos por que um deles deixa o outro pra trás. Não fazemos ideia dos reais motivos pelos quais um talvez peça desculpas; mas não são essas as questões que o conto parece querer tratar: a riqueza do fluxo de consciência e as ações humanas, diante das situações mais adversas, são dois grandes temas que ganham força nessas poucas linhas de história.

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