"O piano está desafinado, liga de novo pro Luciano." Já era a quarta vez que eu dizia que não via problema algum no instrumento, estatelado no meio da sala daquela casa em Laranjeiras onde íamos toda Páscoa, Natal. "Cobrou uma nota pra fazer um serviço de merda, esse salafrário precisa tomar na cara. Ah, se eu fosse uns 15 anos mais novo quebrava ele todo, esse corno." E eu repetindo que talvez a culpa não fosse do tal do Luciano, porque, afinal, segundo o que a minha avó havia dito mais cedo naquele mesmo dia, foram testadas todas as teclas e respectivas notas antes de ter sacramentado conclusa empreitada. Salientou ela também que meu próprio avô havia ouvido, concordado com o veredicto e parabenizado o profissional no momento dado. Talvez o piano estivesse com algum defeito, argumentei. "O ouvido da sua avó é uma merda, ela não pode dizer isso com garantia nenhuma, e eu estava distraído por ter discutido com seu pai mais cedo, outro corno, devia ter insistido pra esse tal Luciano rever todas as escalas, sei lá, a coisa toda. Esses profissionais que são afobados hoje em dia, querem se ver logo livres do serviço e é impossível esse piano estar com algum defeito, ele voltou da restauração impecável! Esse lugar é de tradição, na família, digo, desde seu bisavô, o responsável por essa luthieria era amigo íntimo, reza lenda que até romance tiveram. Digo, nossas famílias tem relação antiga, raio, sei lá se meu pai era macho, só posso falar por mim, porra." Antes que eu pudesse aproveitar qualquer segundo daquele silêncio constrangedor para ir até a cozinha ele continuou: "Sabe? Quer saber? Fico me perguntando agora se valeu a pena essa grana toda, o tal do investimento, afinal, esse piano vai ficar pra você, e você não senta pra tocar, o quê, desde quando?" Explicaria, como havia explicado outras "n" vezes, sobre o concurso, o mestrado, o tempo, a clínica de reabilitação, que eu precisava, com calma, sem pressão, voltar à forma antiga, se é que conseguiria, pois destes detalhes nunca se pode ter a previsão exata. Mas, como de costume, não pude seguir muito adiante nem metade deste argumento antes de ser cortado novamente: "Pega o raio do telefone, vou falar umas verdades pra esse afinador de araque."
No caminho do quarto, para localizar o número, anotado tradicionalmente em sua agenda, pela porta entreaberta da varanda encontraria minha avó deitada na rede, olhando pro alto. Nunca sabia quando ela estava dormindo ou se morrera de vez, e a rede pairava sem balançar. Minha naturalidade de navegar entre uma possibilidade ou outra nunca me surpreendeu, tamanha quantidade de situações de morte e quase morte na família que marcaram minha infância. Voltando com o sem fio nas mãos e o número anotado em um papel, chego por trás de meu avô, este sentado tocando algo entre os primeiros compassos do primeiro movimento do primeiro concerto para piano e orquestra de Tchaikovsky, peça que tantas sovas me rendeu no passado para aprender. Dizia o velho, sem me notar, consigo mesmo: "não é que esta porra está afinada?"
No caminho do quarto, para localizar o número, anotado tradicionalmente em sua agenda, pela porta entreaberta da varanda encontraria minha avó deitada na rede, olhando pro alto. Nunca sabia quando ela estava dormindo ou se morrera de vez, e a rede pairava sem balançar. Minha naturalidade de navegar entre uma possibilidade ou outra nunca me surpreendeu, tamanha quantidade de situações de morte e quase morte na família que marcaram minha infância. Voltando com o sem fio nas mãos e o número anotado em um papel, chego por trás de meu avô, este sentado tocando algo entre os primeiros compassos do primeiro movimento do primeiro concerto para piano e orquestra de Tchaikovsky, peça que tantas sovas me rendeu no passado para aprender. Dizia o velho, sem me notar, consigo mesmo: "não é que esta porra está afinada?"

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