Já faz cinco anos e o que mais me irrita até hoje é que você não vai estar aqui pra ver o quanto eu me tornei melhor, que aprendi a atravessar a rua sem passar por meio dos carros, que perdi o medo de pegar crianças no colo, que você não vai pegar as minhas crias no seu, que aprendi a cantar ao invés de berrar, que aprendi a gritar ao invés de calar, que é a sua receita de arroz que eu uso, que são as suas mesmas frases que eu uso quando xingo, choro, quando algo me faz falta, quando deixo um recado pra outro alguém que também amo. Que você que me ensinou não apenas a prestar atenção no que as pessoas tem a dizer, mas a respeitar o seu silêncio. Sério, isso é uma das coisas mais úteis da vida, e quase ninguém sabe que isso não precisa ser sinônimo de indiferença. No mais, ainda uso palavras que você me ensinou como "jurupoca", "birinaite", "breguete", e que volta a meia tenho que explicar pra outras pessoas do que se tratam. Mas eu insisto em usar porque sim. Herdei também de você a mania de beliscar e morder quase tudo que se move, de dar bom dia/boa noite/boa madrugada. Mas me irrita você não estar aqui pra ver que eu aprendi, finalmente, a abraçar, pois queria uma avaliação derradeira! Que aprendi a querer a esperança de óculos e a ser seu "filho de cuca legal".
Você não vai estar aqui pra me ouvir dizer essas coisas mas vai estar em mim, mãe, e em cada palavra que eu ainda:
─ Disser (eu ainda falo rápido pra cacete, e também ainda falo muito palavrão, como você pôde perceber!);
─ Escrever (com meu garrancho que só piorou, maldito curso de japonês, desculpa!);
─ Ou pensar (tipo agora).
Nisso tudo você vai estar, mesmo que eu esteja apenas descrevendo uma receita de bolo, amaldiçoando uma quina de um móvel que resolveu se estabacar no meu dedo mindinho, me declarando discretamente para alguém que mereça, ou reclamando do preço de tudo nessa cidade (não sei se a notícia chegou aí no céu, mas, ó: não vai ter Copa!). Bem, o bom do olhar de mãe é que ele geralmente é mais generoso que a realidade, e você nem vai se importar que nada disso aqui faz jus à você de verdade.
Errata: provavelmente nunca vou conseguir reler este isso porque não sou, nem de perto, tão nobre quanto você pra me perdoar.
Você não vai estar aqui pra me ouvir dizer essas coisas mas vai estar em mim, mãe, e em cada palavra que eu ainda:
─ Disser (eu ainda falo rápido pra cacete, e também ainda falo muito palavrão, como você pôde perceber!);
─ Escrever (com meu garrancho que só piorou, maldito curso de japonês, desculpa!);
─ Ou pensar (tipo agora).
Nisso tudo você vai estar, mesmo que eu esteja apenas descrevendo uma receita de bolo, amaldiçoando uma quina de um móvel que resolveu se estabacar no meu dedo mindinho, me declarando discretamente para alguém que mereça, ou reclamando do preço de tudo nessa cidade (não sei se a notícia chegou aí no céu, mas, ó: não vai ter Copa!). Bem, o bom do olhar de mãe é que ele geralmente é mais generoso que a realidade, e você nem vai se importar que nada disso aqui faz jus à você de verdade.
Errata: provavelmente nunca vou conseguir reler este isso porque não sou, nem de perto, tão nobre quanto você pra me perdoar.

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