Um: Ah, suas crises de asma e tosse. Sua porta fechada: o seu
jeito de sentir saudade. Os lençóis molhados que eu nunca vou te ver
trocar. O espelho embaçado pela água quente e grafitado pela ponta de seus dedos
com palavras que nem desconfio. O tapete de seu quarto, a poeira, as roupas íntimas que eu te dei. A Voz do Brasil, anunciada a guerra entre a Ucrânia e a Rússia, a intervenção estadunidense, algum conflito no Oriente Médio, e a sua cara de susto. O cheiro de gás vazando. A chaleira que ferveu e apagou o fogo aceso. A cama esperando você voltar. Suas crises de ansiedade e a sua pressa de fazer amor antes da janta.
Dois: A distância que separa um lado da calçada do outro. Entre a parte de cima e a de baixo da boca enquanto aberta em um bocejo. Entre este cinzeiro e o antigo planeta Plutão. Entre o cabelo que cai e o chão que o ampara. Entre os dois olhos seus, entre si, e os dois olhos meus, entre os seus. Entre o tapa e a cara. O cheiro de pólvora vindo da rua debaixo. A tampa do vaso aberta, a tampa fechada. Sob a escala subatômica: oceanos de distância entre dois pontos deitados mesma cama.
Três: Todos os dentes que já caíram e os que cairão. As espinhas que não vão mais brotar, e as já secas, na testa, cicatrizes. O preto desbotado da tatuagem, o Sol. A afta, a agulha na língua. O membro amputado, as maçãs do rosto mordidas, a batata da perna brotando da Terra. As doenças que dão nos nossos ossos cujo nome esqueço. O joelho com estilhaço de vidro enterrado. A gente ainda viva levando fracassos pro túmulo.
Quatro: O palco vazio. A menina dos olhos dançando valsa. O passo de dança, os pés sob os pés sob os pés que marcam as horas. O choro, o maxixe, a flauta transversa, violão e cavaco, enquanto um cheiro de café queimado vem vindo de uma janela entreaberta em Vila Isabel nalgum dia no início do século passado. A madrugada, os postes da Light apagados, o posto de saúde fechado, o pau, a pedra, o fim do caminho, uma agência bancária depredada sob a bruma e o luar, a boca fechada pra não machucar, o rosto fechado pra não perdoar, o pulso pulsando pro coração não parar.
Seis: Ah, seu joelho ralado, o esconderijo óbvio de dentro do armário. O dedo indicador apontando a mentira, duas ruas à frente, diferenciando Vênus do Cruzeiro do Sul. A garoa apertando, a garganta roçando. O quinto dia útil do mês. As férias, a semana que vem. As comunidades Ribeirinhas, a rosa de Hiroshima, as crianças mudas, telepáticas. O grampo no achados e perdidos de seu cabelo, o Girassol. As suas remelas que eu limpei. O Comício da Central em '64, seu cheiro de banho tomado, o samba no boteco ao lado, as rimas, o medo de golpe de Estado. O desejo de trocar de cidade. O telefone tocando até cair, o seu jeito de sentir saudade.
Cinco:
O suor secando no varal, o varal pegando resfriado embaixo da chuva. Os
calos nos dedos de tentar entender o seu corpo, e o meu. Uma boca secando sem a
outra. O ano passado que mal parece mas faz seis meses. O dióxido de
carbono destruindo o pulmão e o planeta na televisão. Nas calotas
geladas, o estado de fusão, os microrganismos, os esquimós, ursos polares morrendo de sono.
A sua tia morrendo de câncer. O dente do siso anestesiado matando em
silêncio a gengiva. Aquele prédio que desabou no Centro da cidade mas
ninguém morreu. O carro que furou o sinal fechado, o berro do corpo
atropelado, desafinado. A unha encravada herdada dos avós, a sensação de morte quando cortam a energia elétrica, o medo que a sua casa dá quando falta luz. A carta borrada de suor ou de
lágrima, não lembro. A marca de bala no portão lá da frente. A formiga
afogada no açúcar da pia. A estrela cadente esquentando seu colo. O
cinema vazio aumentando seu frio. O tempo que leva pros rios banharem
nossas calçadas.
Seis: Ah, seu joelho ralado, o esconderijo óbvio de dentro do armário. O dedo indicador apontando a mentira, duas ruas à frente, diferenciando Vênus do Cruzeiro do Sul. A garoa apertando, a garganta roçando. O quinto dia útil do mês. As férias, a semana que vem. As comunidades Ribeirinhas, a rosa de Hiroshima, as crianças mudas, telepáticas. O grampo no achados e perdidos de seu cabelo, o Girassol. As suas remelas que eu limpei. O Comício da Central em '64, seu cheiro de banho tomado, o samba no boteco ao lado, as rimas, o medo de golpe de Estado. O desejo de trocar de cidade. O telefone tocando até cair, o seu jeito de sentir saudade.

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