segunda-feira, 24 de fevereiro de 2014

Memória no 1

─ Dentro da minha cabecinha os dias ficam misturados que nem purê de batata. Mãe, eu vi que quando a gente cresce, fica assim mesmo, cheio de fio branco pela cabeça. Procurei no dicionário hoje a palavra   "varapau". Descobri que nem é palavrão.

─ Chica bem que escreveu um poema, Maiá. Eu posso ler pra você? "Misturo os recreios, me ralo os joelhos, mal sara a ferida, me cai agora uma pedra em cima."

─ Pai, por que não neva aqui no bairro? Ouvi na rádio que tavam estudando velocidade da luz e ela é o tempo que demora pra lâmpada do Farol da Barra chegar aqui em casa. Eu, eu, muito provavelmente, por nada nesse mundo algum dia vou gostar de fígado acebolado.

─ Estou com um processo trabalhista em curso. Mãe, sonhei que era um passarinho, mas, Mãe, não desses que o tio Júlio deixa na gaiola de madeira, desses que a gente vê de vez e às vezes entrando na janela da cozinha, com fome, pra comer farelo de pão na mesa.

─ Me arranca a boca. Por que só a gente não janta na mesa de jantar? Maiá, falta quanto pra chegar o Natal? E o seu aniversário? E o meu? Acabou a quimioterapia. É benigno. É um menino. Por que tem sempre tanta gente morrendo na televisão?

─ Pra mais maior de nunca mais que eu vou mentir de novo, eu juro, amor. Quem jura, mente. Ouvi papai dizer que a gente vai pagar o apartamento pra sempre. O que que é inflação? Não quero que você aborte. Chica, pra que secar se vai molhar? Pra que chorar se já vai chover? 

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