terça-feira, 18 de fevereiro de 2014

Monólogo em Areia e Dedo: Seis

Hoje não estou inspirado. Eu acordei querendo falar de alguma coisa, acho que sonhei com alguma coisa, mas esqueci, e ai já viu. Tinha um professor, eu ia criticar a realidade universitária, a hipocrisia acadêmica, o ostracismo de quem não se adequa aos padrões institucionais, blá, isso, mas na hora, no sonho, durante o sonho, parecia tão boa ideia, que eu levantei, fui fazer café, já tava meio esquecido, bebi, sentei, aquela coisa de que tinha algo pra aparecer na cabeça, abri o bloco de notas, nada, abri o e-mail pra ver se tinha alguma coisa, tinha uma propaganda de desconto na mensalidade da Gama Filho, daí lembrei, e já não tinha graça, porra, como é que eu vou escrever sobre isso, sabe? Mal consigo acompanhar as leituras por um semestre. E parece que acontece todo dia de manhã, todo dia fico meio cansado, essa minha mania de ir dormir três da manhã, acordar sete, o trânsito no Rio, o Centro, tá aquela bosta, né? Daí já viu. Mas eu queria, queria aquela inspiração. Aquela vontade de ser amado, de sentir uns cheiros, de arranjar uma mulherzinha, pra levar no cinema, discutir relação, tomar esporro porque falou da ex na frente dela, transar no final de semana. Aquela vontadezinha de passar mal, querer morrer, porque tomou um não na cara, porque descobriu uma nova pessoa babaca, mas por quem tá apaixonado pra caralho, tanto que fica cantando Art Popular no Karaokê do Self-Service prato-feito, 9,90 sem balança, no horário de almoço do trabalho, pedindo cerveja, com os amigos arrastando pra subir de novo, tomando esporro do chefe por ter voltado com bafo de álcool pra trabalhar, tomar esporro da mãe, da tia porque não pega o telefone e liga, de mandar mensagem pra ex depois do almoço e ela só responder depois da janta e tu ficar perguntando porque ela demorou tanto e não acreditar quando ela disser que tava sem crédito, de ter pesadelos. Sinto falta de ter pesadelos pesados, sabe? Coisa de ver gente morrendo esmagada no metrô da Supervia, do capiroto comendo boi cru com facão, ver a namoradinha da quinta série pegando um marmanjão da oitava na sua frente, no meio da festa junina da escola, coisa de ficar sem energia elétrica por 15 dias, de acordar de madrugada e encontrar 7 baratas no banheiro, ou de sentir um cocô de pombo no ombro enquanto andar na rua mas olhar e encarar na verdade uma caranguejeira, coisa do Bolsonaro ser eleito presidente vitalício da América Latina, ou de ser arremessado amordaçado no meio do Pacífico por traficantes do morro do Sovaco da Cobra. Nem sei pra que lado fica o Pacífico, Copacabana dá no Atlântico, né? Sempre troco.

Viajei, agora. Desde que acordei eu tô assim, meio grogue. Coisa de cair de calhar de pegar o raio do buraco do ônibus errado, ficar distraído nessa joça de trânsito e notar a burrada só 20 minutos depois, num bairro desconhecido. E isso nem precisa ser pesadelo, acontece volta e meia, é verdade. Até tentei escrever outra coisa, não sobre isso, um poema sobre o ciclo da vida, sobre o transporte público, sobre as chuvas que alagam a cidade, as águas de março, meter uma metáfora entre Carnaval, Sol, cerveja, chuva, Tom Jobim, Elis Regina, lavar e tirar batom na cueca, como se eu algum dia tivesse feito isso, mas também, olha, tava ficando ruim, peguei e rasguei, digo, deletei, quem escreve alguma coisa a mão hoje em dia ainda? Muita gente, claro, eu falo como se vivesse com celular na mão, enfim, nesse instante eu tô aqui enrolando, no serviço, hoje tem pouco fluxo, deixo no mudo direto e vou derrubando ligação, e eu só preciso estar digitando alguma coisa, que meu chefe passa e acha que eu tô trabalhando, mas provável que ele tá puto que nem eu, quem é que gosta de trabalhar sábado de tarde? Esses dias, no meio do serviço, me mandaram uma sms aqui, quem ainda manda sms? Foi uma Carol, queria saber qual, na hora não sabia. Raio de nome comum, mas depois eu descobri, era a Giaccomo, família italiana, enfim, essa tal me chamou pra ir no cinema com ela, e eu, todo, né? me sentindo, vivia chamando ela e ficava me adiando, no mais, respondi, marcamos, fomos ver algum trocinho cult, o que ela queria não tava em cartaz, acabou que paramos em algum filme argentino, só que sem tango. E ela me falando da tal da ex, que terminaram, e que precisava sair pra espairecer, e me pediu um abraço, e explicou uma receita de capuccino caseiro imperdível, e eu me senti assistindo Ana Maria Braga, pois eu não devia parar de coar chá preto em meia. Comentou também que adora literatura africana, subsaariana, que adora Paul Thomas Anderson, e veio falar de uma outra menina, que conheceu outro dia em uma passeata, foi quando eu vi que não dava pra rolar nada mesmo, mas, no mais, o passeio foi bom, acabou que ela virou fechamento e vamos sair com uma galera semana que vem.

Aliás, o raio do filme que a gente viu só me deixou triste, uma garota sozinha, no meio de Buenos Aires, uns muçulmanos, não saquei direito porque tava ficando com sono. Acho que por isso queria escrever uma coisa que prestasse, falar, sei lá. Chegar ali na Uruguaiana, pegar o violão, sentar, fazer os três acordes que eu sei, ver se dava um troco. Esses dias um desses meus amigos de teatro, ateu-pagão-hippie-e-amor-livre que só, ensaiou uns versículos da Bíblia e ficou imitando um personagem de pastor que ele mesmo criou, ali em frente ao Camelódromo mesmo. Depois de 20 minutos já tinham uns 15 ouvintes, 40 minutos, uns 30 cabeças, uma amiga ficou de testemunha, vendo de longe, de uma daqueles Rei do Mate que apareceram lá. Não deu uma hora, ele cansou, se despediu do público, deu uns panfletos que ele imprimiu no trabalho, com a igreja falsa que ele também inventou, "Távola Cíclica de Cristo", por aí, e foi descansar. Parece que tava fazendo laboratório pra alguma peça. Eu queria ser assim, sabe? Espontâneo, ficar fazendo coisas aleatórias, até mesmo sem lá muito sentido, mas que ficam bonitas de se contar pros outros depois. Eu só faço comer e dormir ultimamente, nem gripe direito pego, não rola balada, e se rola, é um tédio. Pareço preso num daqueles filmes que passam de madrugada, sabe Corujão? Que você assiste mas fica a sensação de que você deveria estar dormindo, fica pensando que é terça feira. Falando em bicho, pensei em arranjar um, um gato, um rato, mas dá trabalho. Nem sei se o síndico do prédio deixa. Estou escrevendo em casa já, aleás. Pensando em colocar telefone fixo aqui com secretária eletrônica pra ver se alguém liga e deixa algum recado. Esses dias ligou uma senhora, já de idade, lá pro trabalho, ficou perguntando o meu nome, da minha vida, onde eu estudava, se meu curso ia dar dinheiro, e eu fui dando bola, era simpática. No final ela decidiu que ia cancelar o contrato do raio do seguro do cartão de crédito, mas eu, ah, sei lá, também. Torcendo pra ser mandado embora mesmo. É um emprego temporário, eu sei, eu sei. Já-já eu consigo atuar na minha área. Trovoada. Amanhã vai cair um pé d'água e o único guarda chuva aqui de casa nem cabe na minha mochila. Vou é deitar, já vai dar três. Quero ver levantar. Hoje eu não tô inspirado e fico aqui só falando nada. Pelo menos passou a febre.

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