segunda-feira, 31 de dezembro de 2012

Canção Concreta ao Sol

O Sol nascia de parto normal e se espalhava pela casa em partes iguais. Duas metades pegavam a sala da frente, as outras três pegavam o quarto de trás. As roseiras nos seus vasos bebiam Sol demais e se embriagavam de clorofila. Os cães e os gatos evitavam a cor do Verão estendidos na sombra da lavanderia. O almoço pronto cheirava amarelo o molho primavera. Tamanha radiação deixava as toalhas e as roupas do Varal com gosto de Sol, cheiro de Sol, tato de Sol. Os lençóis também. Poderíamos ficar trezentas e trinta e tantas horas enrolados no lençol de Sol na cama esperando o dia se pôr, mas o efeito passava logo depois uns meios minutos. A madeira do teto e paredes esquentava e cantava, quando o Sol saía, quando o Sol entrava. Até diminuta a Lua, de puro assanho, amanhecia e ficava uns minutos no Céu refletindo a luz do mesmo Sol que já tinha dado o tom do dia. Eu e Você não podíamos sair e brincar de bola ou casinha. Parávamos os relógios toda manhã às nove e meia e fingíamos que até às seis da tarde a Terra ficava parada estátua só para o Sol durar um tanto além o quintal. E este tanto Sol fazia nascer do cimento do jardim umas folhas de hortelã e tabaco, um pé de jaca, uma laranjeira, e vários capins e ervas cidreiras. Havia cimento no jardim porque este fora vítima da censura do golpe de '87 que proibira jardins particulares no país. O Sol nunca queria se conformar com a situação. Nem a Gente quis. A água encanada espalhada pelo chão da cozinha vazava até a porta da rua porque alguém esqueceu a torneira aberta. E a Luz do Sol, concreta,  passava e a evaporava. Tantas torneiras esquecidas depois levadas águas dariam numa chuva forte sob a cidade. De toda chuva nasceriam outros quintais, renascidos do cimento. Do arco íris entre os vãos dos edifícios depois umas crianças achariam graça; uns adultos achariam ouro. Quem sabe dali tempo outro ressuscitaríamos jardins atlânticos. Quem sabe rimaremos com mais frequência e método. O gosto de Sol no canto da boca que mordeu o lençol ficaria ali por mais uns séculos.

Um comentário:

  1. É interessante como elementos da natureza podem atingir tons sublimes através da poesia. O que eu quero dizer é que é mais fácil escrever poesia sobre o céu, a lua, o mar e as estrelas (e o infinito rs), mas... nem sempre a tentativa é bem sucedida. É fácil também cair em desoriginalidades. Mas essa Canção Concreta ao Sol tá sensacional.

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