Esse lençol está uma catinga. No alto do teto, nas esquinas das paredes, teias de aranha acumuladas, quando não as próprias. Que dia é hoje? Primeiro? Setembro tem 31 dias? Não, 30. É dia primeiro. Esse lençol amarelo e lembro como ontem seu passado branco. Um lado de mim que não pesa ou pondera está pensando em levantar, preparar o café, o misto quente ou o que tiver sobrado na geladeira e trazer aqui de volta para cama. Embaixo daquela pilha de roupa costumava haver um poltrona. Deve haver ainda ─ não tenho certeza. Reconheci a nuca dela de longe e cheguei cheirando. De longe, é claro. Comentei da saudade, ela concordou. A mureta da Urca estava especialmente azul hoje. A câmera lomográfica que ela tinha na bolsa testemunhou tudo: disse que o mundo podia ter o tempo inteiro aquela estética. Começamos falando de Heidegger, da cena musical/cultural paulista, do nosso repúdio à militância de determinados partidos de esquerda. 3 garrafas de cerveja depois falávamos de nosso apreço por biscoitos de gergelim e sobre a dúvida jamais sanada, afinal, "que animal era o Praga?", do Xou da Xuxa? Foi quando reconheci sua nuca novamente. Dessa vez mais perto, mordi. Mordi também seu pescoço e levei embora até minha casa. Não estou escrevendo tão rápido quanto penso. Ou quanto as coisas aconteceram. Percebi que vinha da praia, enrolada numa canga tropical. Odiava o adjetivo "étnico" atribuído à moda com influências africanas recentemente. Comentou que morria de vontade de saltar de parapentes. E eu de cair de paraquedas. Na cintura dela. O tufo empoeirado do meu teto balança agora com o vento. Como moro próximo ao litoral, penso que ele é constituído, também, por diversos grãos de areia. Quem sabe um deles veio diretamente de uma rua do Nepal. Antes de me estender por esse caminho sou interrompido. Ela tosse, ajeita o cabelo e vira o corpo para o lado. Pergunto para mim se ela reparou que tem três pratos de comida sujos na beira da janela. Sua calcinha amarela foi parar em cima do ventilador. Já deve fazer tempo desde o perfume, mas ela ainda tem seu cheiro. Levanto para preparar café. O relógio da Central do Brasil marca 8 e meia. Ele sempre se atrasa. Na mureta ela me disse sobre a dificuldade de achar sapatilhas de seu tamanho. Me confessou que sua cerveja favorita era justamente a que bebíamos. Demonstrou não ter medo de barata. Eu confessei já ter filhos, ser divorciado. Confessei minha ablepsifobia. Meu fanatismo pela Maria Bethânia. Ela me disse que era homem, pelo menos por enquanto. Confessei que eu também. Minha cadela adorou sua visita, matando uma saudade como se não a visse desde filhote. Quebramos o abajur. Bebemos erva cidreira. Acabamos com um maço de Marlboro Branco. Estou levando o café com pão torrado ─ acabou o queijo e o presunto ─ para a cama. O feriado de Outubro vai cair logo Sábado. O retrato da minha filha deve ser o único objeto não empoeirado nesta casa.
quinta-feira, 19 de setembro de 2013
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Tá num estilo diferente, comparando com aquele que eu gosto/amo.
ResponderExcluirMas gostei, mesmo.
Acredito que gosto quando me sinto dentro do quarto (?).
É como se fosse mais íntimo. E como se eu estivesse ali, vendo.
<3