sexta-feira, 15 de agosto de 2014

Círculo Perfeito (ou "Monólogo em Areia e Dedo: Trinta e Um")

Um corpo girava em torno de outro corpo em trajetória que descrevia uma elipse. Este segundo corpo girava em torno de um terceiro, maior, que girava, também, em torno de si mesmo. Giravam os três em torno de uma estrela que irradiava luz para todos os lados possíveis. Haviam outros corpos distantes irradiando luz da mesma forma; estes que eram avistáveis e reconhecíveis da superfície destes primeiros, mas que, talvez, devido a sua distância, cuja grandeza era difícil precisar, pelo conforto cotidiano ou simplesmente falta de curiosidade: falavam trivialmente ou se calavam a respeito. Estes outros mantinham em suas órbitas também seus próprios corpos opacos. É preciso salientar aqui que, naturalmente, cada qual tinha um calendário diferenciado e suas próprias formas de cultura local de medir os seus dias, meses e anos, ou seja, sua forma de contar o tempo. Dito isto, esclareço que dependendo do ângulo que miravam o infinito, somando-se as diferentes variações da conjuntura estelar que havia disponível para observação, conforme seus ciclos de translação aconteciam, um e outro, dos mais atentos, estavam razoavelmente cientes da existência e da profundidade da imensidão que se estendia, brilhante, para além do que jamais poderiam tanger ali. Os demais se mantinham preocupados e ocupados com a natureza de seus círculos gravitacionais. Estes, pela preguiça ou simplesmente pelo o cansaço oriundo do consumo que tais e outras tarefas cotidianas lhe custavam os pensamentos, jamais procuravam travar contato mais profundo entre si ou mesmo desenvolver e sofisticar sua linguagem rumo para os outros pontos do universo que despontava abaixo, aos lados e acima de suas cabeças. Por mais que houvesse, sim, possibilidade material para esta empreitada. Contudo, é preciso esclarecermos aqui um fato idiossincraticamente curioso, que aqueles poucos observadores sempre tratavam de alarmar os demais a respeito. De eras em eras acontecia de desaparecer uma das luzes, esvanecida aos poucos ou repentinamente apagada, um ponto a menos no grande mar de incontáveis pontos luminosos. Um leão de fogo azul consumido por si só. (Ou quem sabe, deveras, devorado por um buraco negro?) Seja o que fosse, desdobrava-se a seguinte raridade: Era quando os astros se chocavam com a brevidade da vida.

Um comentário:

  1. Wow, maravilhoso! =)
    Essa parte me fez refletir muito ''É preciso salientar aqui que, naturalmente, cada qual tinha um calendário diferenciado e suas próprias formas de cultura local de medir o seus dias, meses e anos, ou seja, sua forma de contar o tempo. Dito isto, esclareço que dependendo do ângulo que miravam o infinito, somando-se as diferentes variações da conjuntura estelar que havia disponível para observação conforme seus ciclos de translação aconteciam, um e outro, dos mais atentos, estavam razoavelmente cientes da existência e da profundidade da imensidão que se estendia, brilhante, para além do que jamais poderiam tanger ali.''
    O texto inteiro é perfeito! Gracias por me iluminar nessa sexta-feira fria! rs

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